O Ministério da Cultura (MinC) reuniu sambistas, produtores culturais e gestores públicos nesta terça-feira (23), no Rio de Janeiro, para o segundo dia do 1º Seminário Nacional das Rodas de Samba. O encontro teve como objetivo central debater o futuro das rodas de samba, integrando a preservação da tradição com a inovação da tecnologia e a busca por novas estratégias de financiamento para a cultura popular brasileira, visando a formulação de políticas públicas mais eficazes.

Fabricio Antenor, gerente de projetos do MinC, reiterou o compromisso da pasta em ouvir a sociedade para construir políticas públicas sólidas. Segundo ele, "a sociedade pauta a política pública", e os caminhos discutidos no seminário serão fundamentais para o fortalecimento futuro das rodas de samba. Os debates da tarde foram estruturados em dois eixos principais: a inovação tecnológica e as estratégias de articulação e financiamento.

Inovação e redes: a tecnologia a serviço do samba

A primeira mesa de discussões demonstrou como a internet, as redes sociais e a sistematização de dados podem ser poderosas aliadas na preservação das raízes populares. Nilcemar Nogueira, fundadora do Museu do Samba e neta de Cartola e Dona Zica, enfatizou que a salvaguarda do samba não significa relegá-lo ao passado, mas sim garantir sua continuidade.

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"A salvaguarda não é guardar o samba distante. É garantir que ele continue sendo tocado, dançado e vivido por novas gerações. Enquanto houver uma roda formada, haverá uma memória, identidade e futuro", afirmou Nilcemar, destacando a importância da vivência contínua do samba.

A juventude do samba também marcou presença, apresentando novas conexões com a tecnologia. Simony Maia, da Agência Mural de Jornalismo das Periferias de São Paulo, compartilhou sua experiência na criação de um mapeamento digital. A iniciativa visa combater o "apagamento algorítmico" das rodas de samba nas periferias, tornando-as mais acessíveis.

"A gente pode usar a tecnologia e a inovação para jogar luz em algo que já existe. Porque os sambas periféricos sempre existiram, mas faltava compilar essas informações de forma acessível para as pessoas encontrarem numa busca no Google", explicou Simony, ressaltando o potencial da digitalização.

Dani Miranda, criadora de conteúdo, ilustrou como as redes sociais se tornaram um canal eficaz para difundir histórias sobre a origem de grandes sambas. Ao perceber a lacuna na literatura e o distanciamento do público, ela utilizou o Instagram para homenagear mestres e suas composições.

"A rede social virou um espaço importante para contar histórias. O que eu estou fazendo é um arquivo digital do samba. Lá na minha página vocês vão encontrar mais de 200 histórias", celebrou Dani, evidenciando o papel das plataformas digitais na construção de acervos culturais.

Protagonismo feminino e a força das redes

Durante o segundo dia do Seminário, as mulheres demonstraram ser uma força vital na inovação e na construção de redes para o fortalecimento do samba. Andrea Mello detalhou o impacto do Encontro Nacional e Internacional de Mulheres na Roda de Samba, que congrega mais de 1.500 musicistas em 22 estados brasileiros e 10 países.

Idealizado em 2018 por Dorina Barros, o Encontro formou uma rede global de rodas de samba que acontecem de forma simultânea e descentralizada anualmente. "Cada cidade faz a sua roda e então, no mesmo horário, cantamos a mesma música, sempre de uma mulher sambista que está sendo homenageada", explicou Andrea.

Grandes nomes como Beth Carvalho, Leci Brandão, Elza Soares, Alcione, Tia Surica, Teresa Cristina, Áurea Martins e Nilze Carvalho já foram homenageadas. Este ano, a celebração é dedicada a Zezé Mota. No campo da sustentabilidade, Mariana Ferrari compartilhou a experiência do Encontro em Porto Seguro (BA), onde o samba se une às comunidades indígenas Pataxó e promove oficinas de instrumentos feitos com materiais recicláveis.

Financiamento e articulação: superando desafios

A segunda mesa, mediada por Roberta Martins, aprofundou-se na realidade prática dos produtores de rodas de samba, abordando desafios como a escassez de recursos e o preconceito. Pérola de Oyá compartilhou sua inspiradora história de resistência para manter um ponto de cultura com roda de samba em Fortaleza (CE).

"Tudo que eu faço vem do tabuleiro do acarajé. Eu sou baiana de acarajé há 42 anos e é assim que eu consigo movimentar a cultura", revelou Pérola, destacando a resiliência e a autossuficiência de sua iniciativa.

Aline Calixto, idealizadora do Samba da Calixto em Belo Horizonte (MG), reforçou que o racismo religioso ainda se manifesta como uma barreira burocrática para eventos culturais, como os blocos de rua. Para ela, a união de forças é a chave: "Nada a gente constrói no unitário, é o coletivo que tem força".

A secretária de Articulação Federativa e Comitês de Cultura, Roberta Martins, sublinhou a relevância do Seminário como um espaço inédito para a construção de políticas públicas coletivas para as rodas de samba. "Eu acho que é a primeira vez que a gente consegue reunir esse corpo de pessoas para pensar política pública coletiva para as rodas de samba. E isso está sendo iniciado em aliança entre sociedade civil e governo, e vamos chamar outras iniciativas", confirmou.

Rafa Rafuagi, do Museu do Hip Hop, trouxe a inteligência de outros movimentos culturais, compartilhando conhecimentos sobre formas diversificadas de acesso a recursos públicos. Ele alertou para os riscos de depender exclusivamente dos editais tradicionais de cultura, incentivando os sambistas a uma organização de longo prazo.

"O que que faltou pras rodas de samba terem um plano de década para as rodas de samba? Porque se a gente ficar remando de ano após ano, nunca vai virar política pública de fato", questionou o rapper, defendendo uma visão estratégica para a perenidade cultural. Ao final, Rogério Família, da Rede Carioca de Rodas de Samba, sintetizou o espírito do Seminário.

"Para garantir a continuidade das rodas de samba é preciso formar um coletivo de coletivos, perturbar positivamente o poder público e lutar por orçamentos duradouros", concluiu Rogério, reforçando a necessidade de articulação e pressão para assegurar o futuro do samba. Nesta quarta-feira (24), último dia do Seminário, os participantes devem apresentar e debater propostas e resoluções a serem encaminhadas com base nas discussões.