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A letalidade policial no estado de São Paulo alcançou um patamar alarmante no primeiro trimestre deste ano, com 142 pessoas mortas por policiais militares e civis em serviço. Este número representa um aumento de cinco vítimas em comparação ao mesmo período de 2025, conforme dados divulgados pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP).
Especialistas da área de segurança pública expressam profunda preocupação com o elevado índice de mortes em decorrência de intervenção policial (MDIPs). O levantamento foi compilado pela Agência Brasil, com base nos relatórios dinâmicos fornecidos pelo MPSP.
O Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp) do MPSP é o responsável por divulgar esses dados. As informações são fornecidas diretamente pelas Polícias Civil e Militar à promotoria, em conformidade com as determinações legais e uma resolução específica da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP).
Analisando apenas a Polícia Militar em serviço, o número de vítimas da letalidade policial permaneceu estável em 134 no primeiro trimestre de 2026, idêntico ao registrado em 2025. Contudo, os policiais militares fora de serviço foram responsáveis pela morte de 29 pessoas de janeiro a março deste ano, um aumento de três em relação ao mesmo período do ano anterior.
Análise de especialistas e causas da alta letalidade
Mauro Caseri, ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo, enfatizou que uma segurança pública eficaz se traduz na redução da violência e na preservação de vidas. Ele apontou que a ausência de políticas robustas de saúde mental para os agentes e a insuficiência de mecanismos de controle e avaliação do uso da força são fatores que contribuem para a perpetuação desse cenário de alta letalidade.
Em entrevista à Agência Brasil, Caseri detalhou que a combinação de baixos salários, a sobrecarga de trabalho — muitas vezes decorrente dos chamados bicos — e o avanço do adoecimento mental entre a tropa criam um ambiente de risco tanto para a população quanto para os próprios policiais.
O ouvidor concluiu sua análise afirmando: “Cria uma polícia do confronto. Precisamos de uma polícia que resolva conflitos, não de uma polícia que crie conflitos.”
Adilson Santiago, presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), avalia que o estado de São Paulo enfrenta uma crise na segurança pública. Ele destacou que os números impressionam pelo aumento da letalidade e da violência policial, evidenciando uma incapacidade da polícia em proteger a população, ao invés de violar direitos.
Santiago ressaltou a existência de um “apartheid social” que direciona a violência a uma população específica: pessoas negras e moradores da periferia. Segundo ele, este público, em regiões específicas, sofre com a insegurança promovida por aqueles que deveriam garantir sua segurança.
“O que a gente percebe é cada vez mais um despreparo. Pelo visto, não tem formação, não tem um comando que possa de fato auxiliar e conduzir as forças policiais para [formar] uma polícia que seja mais humanizada, uma polícia que possa entender as reais dificuldades da sociedade e trabalhar à altura dos desafios que hoje estão colocados”, afirmou Santiago.
Histórico e aumento da letalidade policial
O número de mortes cometidas por policiais militares em serviço apresentou uma trajetória de queda no governo anterior, entre 2019 e 2022. Os registros caíram de 720 para 262, representando uma redução de 63,6%, de acordo com os dados do Ministério Público.
No entanto, a partir de 2023, sob a gestão atual do estado, o número de vítimas da letalidade policial tem crescido anualmente. Em 2023, 357 pessoas foram mortas por policiais militares em serviço, um acréscimo de 95 vítimas em relação ao ano anterior.
Em 2024, esse tipo de morte registrou um salto significativo, atingindo 653 ocorrências, o que representou um aumento de 83% em comparação ao ano anterior. No ano seguinte, 2025, um novo acréscimo elevou o total para 703 mortos.
Mauro Caseri enfatizou que “o aumento da letalidade policial que se verifica em diversos indicadores não pode ser naturalizado nem tratado como efeito colateral inevitável da atividade policial. Os dados indicam um problema estrutural que exige enfrentamento direto”.
Ele reiterou que o aumento da letalidade não deve, em hipótese alguma, ser interpretado como um indicador de eficiência das forças de segurança.
Para combater a crescente letalidade policial, Caseri defende a urgência em enfrentar a precarização das condições de trabalho dos policiais. Ele também propõe a efetivação e fiscalização do uso de câmeras portáteis pelos agentes, a revisão de práticas operacionais e protocolos de uso da força, e a ampliação da transparência e responsabilização de toda a cadeia de comando envolvida em ocorrências.
O ouvidor adicionou que uma parte considerável dos profissionais opera sob condições de fadiga crônica, pressão psicológica elevada e suporte institucional insuficiente. Diante disso, Caseri defende a instituição de políticas obrigatórias e contínuas de cuidado em saúde mental. “Sem essas medidas, o risco é a consolidação de um modelo de segurança que amplia a violência em vez de reduzi-la”, concluiu.
A resposta da Secretaria da Segurança Pública
Procurada pela Agência Brasil, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) do estado informou que “todas as ocorrências de mortes por intervenção policial (MDIPs) são rigorosamente investigadas, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Poder Judiciário.”
A SSP declarou que, “paralelamente, o Estado tem adotado medidas contínuas para redução da letalidade, como o aperfeiçoamento de protocolos operacionais, capacitação dos agentes e ampliação do uso de tecnologias e equipamentos de menor potencial ofensivo, como espargidores, bastões retráteis e armas de incapacitação neuromuscular, cujos investimentos superaram R$ 27,8 milhões na aquisição de mais de 3.500 unidades desse tipo”.
A secretaria também informou que o total de câmeras operacionais portáteis está sendo ampliado para 15 mil. “Programas como o Muralha Paulista integram tecnologia, inteligência e bancos de dados para aumentar a eficiência das ações e reduzir a necessidade do uso da força”, acrescentou a SSP, detalhando que mais de 125,5 mil câmeras estão interligadas e mais de 70% da população paulista é coberta pelo sistema.
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