Milhares de mães de pessoas desaparecidas no Brasil intensificam seu clamor por visibilidade, memória e apoio, especialmente em datas significativas como o Dia das Mães. A luta diária dessas mulheres contra a ausência e a indiferença ganha urgência, diante de um cenário onde, em 2025, impressionantes 84.760 indivíduos foram dados como sumidos no país, conforme dados que reforçam a dimensão dessa tragédia.

Elas buscam filhos que sumiram recentemente ou há décadas, mantendo viva a esperança de um reencontro que possa restaurar o sentido de suas vidas. A jornada é marcada por becos escuros, indiferença em delegacias e até preconceito nas ruas.

A intensidade dessa dor é tamanha que a ficção frequentemente a explora. Romances como Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, e Coração sem Medo, de Itamar Vieira Junior, retratam mães em buscas desesperadas por seus filhos, ecoando a realidade de muitas.

Publicidade

Leia Também:

A angústia de Clarice Cardoso

Na vida real, a dor se manifesta de forma crua, como no caso de Clarice Cardoso, de 27 anos, moradora da comunidade quilombola São Sebastião dos Pretos, em Bacabal (MA). Seus filhos, Ágatha Isabelle, de 6 anos, e Allan Michael, de 4, desapareceram em 4 de janeiro deste ano.

Eles haviam saído para brincar e procurar maracujá na mata próxima à casa, acompanhados do primo Anderson, de 8 anos, que foi encontrado posteriormente. Clarice, que também é mãe de André, de 9 anos, descreve o pesadelo de mais de quatro meses de incerteza.

Em entrevista à Agência Brasil, ela revela que o filho mais velho, André, tem sido um pilar de apoio, compreendendo a gravidade da situação. A família, incluindo o pai Márcio, vive em um estado de suspensão, aguardando qualquer notícia.

“A cada ligação que eu recebo, penso que pode ser uma novidade, alguma pista”, desabafa Clarice. No Dia das Mães, seu pedido é por mais atenção do País aos seus filhos e por mais ajuda nas buscas, que seguem uma rotina diária de contato com a polícia.

Preconceito e desafios

Além da dor da perda, Clarice enfrenta o preconceito. Ao ir à delegacia, a 12 quilômetros de sua casa, ela percebe olhares e comentários maldosos, acreditando que o racismo está presente em alguns julgamentos. “As pessoas me olham. Algumas parecem ser solidárias. Mas muitas têm preconceito sim”, lamenta.

Sua mãe, que a apoiava nas buscas, sofreu um acidente de moto a caminho de Bacabal, adicionando mais desafios à família. “Ela se machucou nas mãos e agora eu tenho que fazer mais coisas para minha casa e minha família. Mas minha vida está parada”, relata Clarice.

A investigação policial aponta para a possível presença de um homem que teria tido contato com as crianças na mata. Contudo, a polícia local afirma que todas as informações são averiguadas com empenho para elucidar os desaparecimentos.

Rede de apoio: Mães da Sé

Para Ivanise Espiridião, de 63 anos, de São Paulo, a formação de uma rede de apoio foi essencial. Ela busca sua filha Fabiana desde 23 de dezembro de 1995, quando a menina tinha 13 anos. Para transformar sua dor em ação, Ivanise criou o grupo Mães da Sé.

Em 2026, ela completará seu 30º Dia das Mães sem a filha. “O Dia das Mães causa uma mistura de sentimentos, de ser lembrada pelos filhos que estão conosco e tristeza por não ter uma pessoa que faz parte dessa família e que está ausente”, explica.

Hoje, o consolo vem dos abraços da filha Fagna, de 43 anos, e da neta Eva, de 7. O grupo Mães da Sé, que começou com mães em situações semelhantes, se tornou uma segunda família, unida pela dor e pela esperança de respostas.

Inicialmente, elas levavam cartazes para dar visibilidade às histórias na Praça da Sé. “Virou um dia muito triste para nós”, recorda Ivanise, explicando a decisão de não ir mais à praça nesse dia para focar nos filhos presentes.

Atualmente, o grupo Mães da Sé reúne mais de seis mil mães no país, a maioria em São Paulo. Uma ferramenta importante é o aplicativo Family Faces, que utiliza reconhecimento facial para auxiliar na localização de pessoas desaparecidas, comparando fotos com o banco de dados da associação.

Ivanise transformou sua dor em ativismo, dedicando-se a oferecer apoio e orientação a familiares de desaparecidos. Ela enfatiza a necessidade de autocuidado, mas sua causa não tem horário. “Todos os dias, a gente recebe pedidos de ajuda de pessoas que tem alguém desaparecido”, afirma.

Cerca de 42% dos desaparecidos são encontrados. Ivanise destaca uma orientação crucial: não é preciso esperar 24 horas para notificar um desaparecimento à polícia. “Mas essa prática abusiva ainda acontece porque as famílias que são vitimadas pelo desaparecimento são muito simples e desconhecedoras de direitos”.

A Lei nº 11.259, de fato, determina que a ocorrência de desaparecimento de criança e adolescente deve ser registrada e as buscas iniciadas imediatamente pela autoridade policial.

Apesar do tema doloroso, Ivanise e Fagna ensinam à pequena Eva sobre a tia Fabiana, garantindo que a memória seja preservada e que a neta compreenda o papel de sua avó como uma "mãe da Sé, ativista e lutadora".

A importância do suporte psicológico

Além do apoio familiar, o suporte psicológico profissional é crucial. Transtornos como depressão, pânico e ansiedade são comuns. O grupo Mães da Sé oferece atendimento remoto com voluntários.

A psicóloga Melânia Barbosa, pesquisadora na área, explica a particularidade da dor da ausência e a necessidade de suporte emocional do poder público. Ela ressalta que a presença e a escuta ativa de pessoas próximas são fundamentais, sem a pretensão de oferecer respostas inexistentes.

“O principal é você saber que tem alguém ao seu lado e não se sentir sozinho”, afirma Melânia, destacando que os grupos de apoio reforçam essa percepção, dando motivos para as mães enfrentarem a luta.

Culturalmente, as mulheres sempre estiveram ligadas ao cuidado dos filhos, o que as mantém vinculadas a eles, mesmo em situações de doença, prisão ou desaparecimento. Melânia também aponta a necessidade de maior capacitação dos profissionais de psicologia para lidar com esses casos, que ainda são pouco explorados na formação acadêmica.

Lucineide Damasceno e a ONG Abrace

Outra paulista que dedica sua vida ao apoio a famílias enlutadas é Lucineide Damasceno, de 60 anos, também integrante do Mães da Sé. Ex-cabeleireira, ela fundou a ONG Abrace, que oferece suporte, inclusive alimentação, a familiares de desaparecidos em situação de vulnerabilidade.

Seu filho, Felipe, sumiu aos 16 anos em 3 de novembro de 2008, após sair de moto para encontrar um amigo que também desapareceu. Foi após uma crise de pânico em 2013 que Lucineide decidiu transformar sua busca pessoal em ativismo.

“Quando eu conheci mulheres que procuravam seus filhos há muito tempo, foi um choque de realidade”, conta. No grupo Mães da Sé, ela encontrou amparo e reconhecimento. Mesmo nos dias mais difíceis, o abraço de outras mães na Praça da Sé a fortalece.

Apesar da dor, a esperança permanece viva. “Eu não quero mudar daqui porque eu tenho a esperança de o Felipe bater no portão e dizer: ‘mãe, estou aqui’”.

Lucineide também é mãe de Amanda e Anderson, e avó de Gustavo, de 11 anos, e Gabriel, de 9. Ela os orienta sobre os perigos de conversar com estranhos e entrar em carros de desconhecidos.

A família se adaptou ao fato de Lucineide evitar eventos festivos no Dia das Mães, mas a busca por almoços familiares é um esforço que ela faz para mostrar que, apesar da tristeza, eles são especiais em sua vida. O abraço dos netos e a notícia de outro reencontro trazem conforto.

Lucineide guarda com carinho as lembranças de Felipe, um adolescente animado e apaixonado por futebol. Há duas décadas, mantém o hábito de colocar um presente para ele sob a árvore de Natal, na esperança de que um dia ele volte para recebê-los. Por enquanto, ela aguarda notícias, abraços e apelos para que ninguém os esqueça.

FONTE/CRÉDITOS: Colaboração