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O Território Rampa, localizado entre os municípios de Cantanhede e Várzea Grande, no Maranhão, obteve em outubro de 2025 uma autotitulação coletiva e independente sobre uma área de 6.418 hectares. A decisão marca um marco para as aproximadamente 286 famílias que vivem no território — ocupado desde 1818 — e para as comunidades organizadas localmente.
Desenvolvimento: Depois de mais de 20 anos aguardando titulação por via administrativa, moradores do Território Rampa se mobilizaram para financiar o processo jurídico que regularizou a destinação da posse para quatro associações reconhecidas: Quilombo da Rampa, São Joaquim da Rampa, Pequi da Rampa e Caetano da Rampa. Como a posse já pertencia a diversos moradores e não houve necessidade de indenizar terceiras pessoas, o procedimento foi consolidado.
O território reúne ao menos 12 comunidades e preserva práticas culturais com mais de dois séculos de história. Entre as tradições destacadas estão o tambor de crioula — manifestação de dança, canto e percussão originada nos quilombos do Maranhão — e a Festa de São Bartolomeu, realizada em agosto por cerca de 10 dias, ocasião em que a comunidade também celebra o aniversário do território.
Rádio e TV Quilombo
A iniciativa de comunicação local nasceu em 2017, quando jovens da comunidade começaram a produzir imagens e registros com equipamentos improvisados, transformando tecnologia simples em ferramenta de visibilidade. A Rádio e TV Quilombo conta hoje com cerca de 60 pessoas envolvidas nas atividades e permite a participação de diferentes gerações na produção de conteúdo e na pautação dos materiais.
O projeto foi reconhecido em premiações ao longo dos anos: em 2018 recebeu destaque no 1º Festival de Cinema Móvel de Brasília na categoria "Mídia Alternativa"; em 2023 foi apontado entre veículos de comunicação negra admirados no país; e em 2025 ganhou o Prêmio Direitos Humanos - Edição Luiz Gama & Esperança Garcia, na categoria “Produção Cultural em Direitos Humanos”, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. A rádio e a TV comunitária também são usadas para denunciar violações e articular lutas locais.
Raimundo Quilombola, comunicador do Território Rampa, e William Cardoso estiveram entre os responsáveis por dar início ao trabalho audiovisual. Além de promover a cultura e as trocas internas, a mídia local atua na defesa de direitos e na denúncia de formas de racismo ambiental que ameaçam o modo de vida da comunidade.
Entre as pressões externas apontadas pelos moradores estão o avanço de monoculturas e a pulverização de agrotóxicos nas áreas vizinhas. Essas práticas, junto com as alterações climáticas — como variações na quantidade de chuva e aumento de temperaturas — têm impactos diretos sobre a produção local: perda de sementes crioulas, secura do solo e dificuldade em manter culturas tradicionais que garantem soberania alimentar.
Nas roças do território são cultivadas hortaliças, arroz, mandioca, maxixe, quiabo e abóbora, entre outros alimentos que sustentam a comunidade. Os moradores destacam que o território representa não só recursos econômicos, mas também memória, cultura e dimensão sagrada para as práticas coletivas.
Encerramento: A autotitulação coletiva do Território Rampa e a consolidação da Rádio e TV Quilombo representam avanços em segurança fundiária, autonomia comunitária e preservação cultural. Ao combinar organização territorial e comunicação comunitária, a experiência do Rampa oferece um exemplo de articulação entre luta por direitos, defesa do território e uso da tecnologia para visibilidade e denúncia, enquanto enfrenta desafios ambientais e econômicos impostos por pressões externas.
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