A peça de teatro “Histórias Bordadas em Mim” é recebida por estudantes dos cursos técnicos de Artes Visuais e Teatro da Escola Técnica Estadual Professor Alfredo Freyre, nesta quarta-feira (12 de novembro), no bairro de Água Fria (Zona Norte do Recife), às 15h, e no sábado (15/11) pelo Ilê Axé Oxum Ipondá, em Olinda, no bairro Jardim Fragoso, às 19h. As apresentações são realizadas solo pela atriz pernambucana Agrinez Melo, também diretora teatral, professora e pesquisadora. 

Ela própria assina a direção, os textos (dramaturgia), a criação e execução do figurino e a cenografia do espetáculo, que em 2026 completa dez anos de existência, com memórias, vivências artístico-culturais independentes e resistência. Vale destacar que a peça teatral está reorganizada, com novidades nas cenas. Como referências estão a oralidade, com pesquisas baseadas no conhecimento do povo ancestral africano e no seu repasse; as trocas e ensinamentos da própria mãe costureira e suas avós benzedeiras; a relação com terreiros de matriz afro-indígena. 

“Ao entrar no espetáculo, as pessoas são convidadas para um banho de ervas. A personagem sou eu, que coberta por retalhos e saias marca os pontos riscados das encruzilhadas de histórias reais e outras da imaginação. Tudo isso para proporcionar um resgate no que há de mais orgânico na vida: a fé no amor e a possibilidade de ressignificar acontecimentos vivenciados em um passado ainda presente, e persistente. O público tem contato com novas narrativas teatrais, trazidas nas cenas de posicionamento enquanto mulher negra, mãe, candomblecista e nordestina, conta Agrinez Melo. 

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A realização do espetáculo autoral é da Doce Agri. Na peça, as histórias sobre o reconhecimento da ancestralidade, das brincadeiras e do encontro com orixás e encantados conduzem a narrativa e as energias do corpo na cena, que são realizadas dentro da pesquisa Poética Matricial dos Orixás e Encantados, da autoria de Agrinez Melo. A encenação caminha para o questionamento e a reflexão social e filosófica em relação à valorização do ser humano a partir de gestos simples, da vida espiritual e cultural e do posicionamento feminino no momento atual. 

Os textos receberam assessorias de direção e dramaturgia. Os elementos da encenação também estão com novas roupagens, fortalecendo as concepções de narrativas atuais e positivas do corpo da mulher negra nas artes da cena. O figurino, a iluminação, o cenário e a música ganharam outras perspectivas, cores e texturas, tendo um plano de luz que permanece com a ideia de fontes artesanais, mescladas e com aparatos tecnológicos. Já a musicalidade do espetáculo traz instrumentos percussivos e uma sonoplastia mais regional, assim como a recriação de melodias mais enegrecidas para as músicas já existentes.

“Nas cenas, uma atriz e seus gestos, um músico e a dramaturgia envolvida com resgate da oralidade ajudam na criação entre o real e a ficção em tom aconchegante. As histórias narradas às vezes são minhas, outras fantasiadas, e que também podem ser de cada pessoa que assiste ao espetáculo”, declara Agrinez.  

Desde 2016 em atividade com uma produção independente, “Histórias Bordadas em Mim” conquista um edital pela primeira vez. Agora, por meio de incentivo público, o espetáculo consegue ser reconfigurado, com a continuidade como objetivo. Agrinez Melo considera que o feito da aprovação pública é fruto do processo de reparação, sendo uma abertura para que novas possibilidades da arte sejam pensadas e pesquisadas.    

Agrinez tem formação em Teatro pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e é Mestra e Doutoranda em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Nas produções autorais, faz e desenvolve diversas criações em Pernambuco, no Nordeste e pelo Brasil, como formação teatral, atuação, pesquisa do corpo para a cena e dramaturgia a partir do corpo e seus movimentos energéticos ancestrais, entre outras atividades de espetáculos, oficinas, formações, direção, produção técnica, artística, cultural etc. Ela é escritora e também uma das sócias do grupo teatral recifense O Poste Soluções Luminosas, além de uma das artistas que lidera o espaço do grupo, no centro do Recife. É criadora da Doce Agri, focada na acessibilidade, no teatro e nas oficinas.

“Estamos sempre com a necessidade de recriar e de refazer só que de jeitos diferentes. O incentivo público é um mecanismo para realizar as apresentações e consequentemente ampliar o compartilhamento da sua existência. A realização de ‘Histórias Bordadas em Mim’ pode ser uma possibilidade de mudar algo na vida das pessoas, transformar um olhar, ou simplesmente um convite de partilha”, comenta.  

Com uma diversidade de profissionais, a equipe técnica é praticamente toda pernambucana: Talles Ribeiro (criação e execução da sonoplastia e designer gráfico); Vilma Uchôa, Francis Souza e Monique Nascimento (execução do figurino); a baiana Fabíola Nansurê (assessoria dramatúrgica e direção na etapa de manutenção do espetáculo no Funcultura); Brunna Martins (assistência de produção); Dudu Silva e Lucas PHT (fotografia); Deny Silva e Brenda Lima (filmagem do espetáculo e teaser); Foster Costa (produção e direção criativa de fotografia) e Daniel Lima (assessoria de imprensa).  

A retomada do espetáculo ocorreu recentemente no Espaço O Poste, no bairro da Boa Vista (centro do Recife), nos dias 10 e 11 de outubro. Ambas as sessões com recursos de acessibilidade de interpretação em Libras para a comunidade surda e audiodescrição para pessoas com deficiência visual (cegas ou com baixa visão), intelectual ou neurodivergentes. Todas as apresentações têm incentivo público, com financiamento do edital Funcultura (Fundo de Incentivo à Cultura de Pernambuco), por meio do Governo de Pernambuco, Fundarpe e Secretaria de Cultura (Secult-PE). 

Em setembro deste ano, Agrinez também fez a oficina "A Poética Matricial dos Orixás e Encantados" para estudantes do curso de Licenciatura em Teatro da UFPE e pesquisadoras e pesquisadores de teatro. Essa atividade no Centro de Artes e Comunicação da UFPE está diretamente ligada à pesquisa “Histórias Bordadas em Mim: reparação para reintegração na cena”. A ideia surge justamente da necessidade de aprimorar a peça. 

Histórico

São mais de 50 exibições entre Região Metropolitana do Recife (RMR), Agreste, Sertão e Zona da Mata Norte de Pernambuco, regionalmente no Ceará e nacionalmente em São Paulo. Ao todo, cerca de 6 mil pessoas já assistiram ao espetáculo. Foram feitas apresentações em festivais; mostras; associações, espaços e núcleos culturais; teatros; escolas, universidades, bibliotecas e instituições públicas de ensino; quilombos e territórios indígenas; praças, parques e jardins (locais públicos).

A estreia de “Histórias Bordadas em Mim” aconteceu na cidade de Petrolina, no dia 13 de agosto de 2016, durante o Festival Aldeia do Velho Chico. Nesse circuito pelo Sertão pernambucano, também chegou ao município de Lagoa Grande, sendo apresentada na comunidade quilombola do Lambedor, além de estar na comunidade Céu das Águas, em Petrolina. 

A peça já esteve em cartaz no Espaço O Poste; Estação das Artes (Sesc Piedade - Jaboatão dos Guararapes), I Festival Alternativo de Recife “Outubro Ou Nada”; Mostra Capiba (Sesc Casa Amarela - Recife), todas em 2016; XXIII Janeiro de Grandes Espetáculos; Mostra Camurim de Artes Cênicas (Sesc Ler São Lourenço da Mata); Festival Virada Cultural (Sesc Ler Buíque/PE, Agreste); Mostra Transborda (Sesc Santa Rita), essas no ano de 2017; No Meu Terreiro Tem Arte (na Zona Rural do município de Ingazeira/PE, Sertão), 28º Festival de Inverno de Garanhuns (FIG); Mostra Lagoa do Capim (Sesc Belo Jardim/PE, Agreste) - 2018; 11ª Semana de Artes Integradas (campus UFPE, em Caruaru/PE, Agreste); PretAção - Mostra de Mulheres Pretas; Mostra Camurim de Artes Cênicas (Sesc Ler São Lourenço da Mata), Casa Maravilhas (São Paulo); Mostra Goyanna das Artes (Sesc Ler Goiana, Zona da Mata Norte/PE) - 2019; Mostra Rosa dos Ventres e Latinidades Pretas, ambas em 2020; Sesc CE e Mostra TSI em cena, as duas no ano de 2021; Festival Multicultural Isso é Coisa de Mulher (na cidade de Aliança/PE, na sede do Cavalo Marinho Boi Pintado, Zona da Mata Norte) - 2022. 

Histórias Bordadas em Mim (serviço) - 2025

Datas e locais

12 de novembro (quarta-feira)

Local: Escola Técnica Estadual Professor Alfredo Freyre (bairro de Água Fria, rua Zeferino Agra, nº 193, Zona Norte do Recife)

Horário: 15h

Apresentação para estudantes dos cursos técnicos de Artes Visuais e Teatro da própria instituição 

 

15 de novembro (sábado)

Local: Ilê Axé Oxum Ipondá, em Olinda (bairro Jardim Fragoso - rua João José Tertuliano, nº 305)

Horário: 19h

Apresentação para as pessoas do terreiro e público visitante

Sinopse 

Uma bacia, água e ervas. Retalhos de tecidos que simbolizam histórias, alinhavados em fragmentos. Corpo de mulher negra, água e encruzilhada. Histórias Bordadas em Mim é um convite ao benzimento alicerçado na Poética Matricial de um Ara Agbara, conduzidos pelas avós Maria e Belarmina. Quem veio antes de você? Quem costurou sua história? O espetáculo evidencia uma artista negra que vai costurando em cena as histórias reais de um cotidiano nem sempre convidativo, nem sempre seguro, nem sempre de paz. Um corpo de teatro de enfrentamento que dança. Expandir, contrair e flutuar, costurar, descosturar, retalhar. Palavras de envolvimento que convidam o público para apreciar uma dramaturgia grafia corpórea-oralizada. Bebendo da fonte de uma pesquisa no povo griot, vai através da narrativa costurando acontecimentos de sua vida real e cotidiana e evidenciando a matriz negra neste cotidiano. As histórias sobre o reconhecimento da sua ancestralidade, as brincadeiras e o encontro com seus Orixás e encantados conduzem as ações do espetáculo. Uma pausa para um banho de ervas, uma música e um mergulho nas histórias de alegrias, amor, dor, morte, vida, negritude, empoderamento e saudade…

Ficha técnica - Histórias Bordadas em Mim - 2025

Direção, textos (dramaturgia), criação do figurino e cenografia: Agrinez Melo

Criação e execução da sonoplastia: Talles Ribeiro 

Execução do figurino: Agrinez Melo, Vilma Uchôa, Francis Souza e Monique Nascimento

Adereço cenográfico e preparação de canto: Douglas Duan

Designer gráfico: Talles Ribeiro

Assessoria dramatúrgica e direção na etapa de manutenção do espetáculo no Funcultura: Fabíola Nansurê

Assistência de produção: Brunna Martins

Fotografia: Dudu Silva e Lucas PHT

Filmagem do espetáculo e teaser: Deny Silva e Brenda Lima

Produção e direção criativa de fotografia: Foster Costa

Assessoria de imprensa: Daniel Lima

Realização: Doce Agri

Incentivo público: financiamento do edital Funcultura (Fundo de Incentivo à Cultura de Pernambuco), por meio do Governo de Pernambuco, Fundarpe e Secretaria de Cultura (Secult-PE).