No dia 24/5, domingo, às 18h, o Teatro de Bolso do Cine Theatro Brasil Vallourec, será palco do lançamento do primeiro álbum de Delson Guimarães, guitarrista e violonista de Itaúna, radicado na capital, com 26 anos de trajetória, intitulado Hermelética. Produzido por Filipe Glauss, o disco contém 11 faixas instrumentais em que os ritmos variam entre xote, frevo, jazz e música brasileira. Delson explica que o álbum apresenta “uma música que um músico mais exigente escuta e percebe a riqueza da construção, o peso harmônico, o cuidado estrutural. Existe o virtuosismo, que faz parte do meu jeito de tocar, mas ele não sobrepõe o lirismo. Em meio a momentos mais densos, há espaços cantáveis. Os solos, muitas vezes, não são apenas virtuosísticos e podem ser cantados”, diz. No show, o artista será acompanhado por Aloizio Horta, baixo, Levy Júnior, bateria, Daniel Guedes, percussão, Luadson Constâncio, teclado e acordeom, Marcus Julius, clarineta, Fabiano Zan, sax, Ester Bernardete, violino, Ana Caracol, Thais Moreira e Clara Dias, voz. Os ingressos custam R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia), e podem ser adquiridos pelo site eventim. A classificação é livre.

O título do álbum, Hermelética, é um neologismo que soma o nome de Hermeto Pascoal (1936-2025) e hermenêutica, que é a teoria da interpretação de textos, símbolos e comunicações, que tenta compreender a mensagem de forma correta. No caso deste projeto, o objetivo é entender a música e, de acordo com o artista, o nome do álbum “sintetiza muito o conceito que eu quis para esse primeiro disco. A primeira coisa que me guiou foi a acessibilidade, eu queria um álbum acessível, mas sem renunciar ao requinte. Esse nome carrega uma harmonia mais arrojada, estruturas mais elaboradas, momentos de maior complexidade e virtuosismo. Ainda assim, permanece uma música cantável”, diz. A ideia é deixar o ouvinte mais próximo, trata-se de um disco de música instrumental palatável, gostoso de ouvir e leve. “Algumas pessoas que já ouviram Hermelética falam que as músicas têm uma melodia cantável. É como se eu estivesse contando uma história, e o mais interessante é que as pessoas entendem essa história”, revela Delson.

O músico diz que a inspiração para Hermelética vem do fazer diário, como professor de música, formado pela UEMG, Delson tem um encontro constante com o instrumento. “É nesse espaço de convivência que a criação se manifesta, muitas vezes por meio da improvisação, como extensão natural do corpo e da escuta. Tudo reverbera e se transforma em som. Essa relação íntima com o instrumento, esse processo criativo diário, é profundamente banhado pelas minhas influências, coisas que eu escuto desde criança, desde o rádio, as músicas religiosas, o jazz, a música brasileira, que tem uma presença muito forte na minha linguagem”, conta. 

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Este é o primeiro trabalho solo de Delson Guimarães, que já dividiu o palco com artistas como Samuel Rosa, Dilsinho, João Bosco... Acompanhou músicos como, Marcio Bahia, Lincoln Cheib, André Limão, Enéias Xavier, Alvimar Liberato, Breno Mendonça, Daniel Guedes, Ultra Jazz Big Band, Bruno Veloso, Irene Dias, entre outros. Na edição 2025 do BDMG Instrumental, Delson foi finalista. Neste trabalho o artista deseja se aproximar de um público que não tem acesso à música instrumental e mostrar seu lado autoral. “Um dos objetivos principais é acessar o cenário dos festivais, projetos, me tornar mais ativo no circuito da música instrumental. Reforçar a minha carreira como um artista que leva o seu som, sua identidade, e não somente um sideman”, atesta.

Delson afirma que Hermelética “é uma mistura de anos de estudo, de conhecimento musical, de vivências, de experiências, de sensações, de questões relacionais e afetivas que se transformaram em música, e que, no fundo, são histórias”, observa. O disco é uma somatória de diferentes percepções que tocam o ouvinte de forma diferente. “É isso que sinto ao ouvir o disco. E é essa a experiência sensorial que desejo para o ouvinte”, conclui o violonista.

Sobre o artista

Natural de Itaúna, Delson Guimarães começou a tocar violão aos 12 anos influenciado pelo irmão, que tocava cavaquinho e violão em escola de samba e grupo de pagode. Por questões financeiras, deixou a música de lado, só retomando anos depois, tocando na igreja e estudando com Alvimar Liberato. Em 2000, mudou para capital mineira, onde cursou música na UEMG. “Fui entrando também na área da docência. Comecei a dar aulas e fui construindo esse lugar de professor, que acabou se tornando uma parte muito importante da minha vida. Foi nesse contexto que surgiu o apelido “Tio Delson”, ligado a esse lugar de educador musical”, conta. Em paralelo, desenvolveu sua atuação na música acompanhando cantores, tocando música instrumental, como sideman. Foi professor por três anos e meio no Conservatório de Alfenas. Atualmente, trabalha no Núcleo Villa-Lobos de Educação Musical, em Belo Horizonte, uma instituição tradicional que trabalha desde o ensino infantil até alunos com deficiência. Também mantém seu trabalho de sideman em projetos como o grupo Jazzô, que faz releituras de músicas brasileiras e internacionais com espaço para improvisação e criação. 

Faixa a faixa, por Delson Guimarães

Hermelética - uma música que um músico mais exigente escuta e percebe a riqueza da construção, o peso harmônico, o cuidado estrutural. Existe o virtuosismo, que faz parte do meu jeito de tocar, mas ele não sobrepõe o lirismo. Em meio a momentos mais densos, há espaços cantáveis. Os solos, muitas vezes, não são apenas virtuosísticos — são solos que podem ser cantados. Isso, a meu ver, aproxima o ouvinte da música. Ele consegue digerir, assimilar e compreender com mais facilidade o que a música está dizendo

Guitarra: Delson Guimarães
Baixo:    Adriano Campagnani
Bateria: Isac Jamba 
Teclado/piano:    Luadson Constâncio
Gaita: Gabriel Grossi

Saudade - foi criada com um sentimento de perda. Ela nasceu em um momento de conflitos emocionais, mas principalmente com o impacto do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. A imagem das crianças brincando no Rio Doce antes e, depois, os moradores olhando o rio triste trouxe essa sensação de saudade dolorosa. A música é intimista, não oscila, justamente para manter esse lugar. A sua construção dialoga com uma das minhas maiores influências do violão, harmonicamente dizendo, que é o Guinga. 

Violão: Delson Guimarães 
Clarineta: Marcos Július 

Partida - é uma música em homenagem à minha mãe. Ela nasceu de uma brincadeira no violão, quase como um estudo, com uma sequência cromática nas cordas agudas. A melodia começou a surgir e me trouxe a imagem dela se despedindo de mim dentro de um ônibus. Esse retrato guiou a construção da música. A primeira parte tem uma harmonia mais densa, enquanto a melodia traz equilíbrio e ajuda a aliviar essa tensão. Depois, a música trabalha contrastes entre regiões mais agudas e mais graves, trazendo mais dramaticidade, lembrando em alguns momentos a escrita do Villa-Lobos. Graves que remetem ao cello. Ao mesmo tempo, há respiros que mantêm esse lugar da despedida.

Violão: Delson Guimarães
Cello: Robson Ferreira

Olha a Ginga do Garoto – choro que vem da brincadeira com os nomes dos compositores Guinga e Garoto, duas grandes influências. A melodia tem um caráter mais ácido, mas também transita para um lugar mais leve, principalmente na parte B. A harmonia é bem elaborada. A primeira parte foi feita na época da faculdade e ficou guardada por anos, até que a segunda parte surgiu depois. A música traz modulações e um certo movimento que gera inquietação. No final da exposição do tema, aparecem elementos que lembram ataques de Big Band. É um choro mais moderno, com essa mistura de referências.

Violão: Delson Guimarães
Clarineta: Marcos Július

Xô pensar - é um xote com essa característica mineira, mais devagar, malandro, com esse jeito mineiro pacato… de “deixa eu pensar”. Ele nasceu de uma brincadeira com clusters a partir da escala menor melódica. A introdução surgiu daí e logo veio um tema bem cantável. A música tem uma simplicidade trabalhada, com um swing presente o tempo todo. Na parte B, aparece uma ideia mais modal e uma influência do Milton Nascimento, lembrando alguns encadeamentos harmônicos de “Maria Maria”. É uma música envolvente, dançante, que mantém a cadência e o balanço mesmo nos solos. Com o toque magistral de Toninho Ferragutti no acordeom, a música abraça Minas e o Nordeste.

Arcodeom: Toninho Ferragutti
Bateria:  Levy Júnior 
Percussão: Daniel Guedes 
Baixo: Pedro Gomes 
Guitarra: Delson Guimarães

Vai pagar pra ver- é um samba escrito na época da faculdade, com forte influência do grupo Cama de Gato. É um samba festivo, com uma sensação de reunião, de todo mundo tocando junto. A harmonia é mais direta, mas com alguns momentos de variação. O groove é muito presente. No final, a música abre para um clima que lembra escola de samba, com mais peso rítmico e energia. O nome veio da própria rítmica da introdução. Devido à dificuldade de dar o nome, fiquei cantarolando o ritmo da introdução e fazendo jogo de palavras. Daí veio “Vai pagar pra ver”

Bateria: Isac Jamba
Percussão: Daniel Guedes 
Baixo: Aloizio Horta 
Violão: Delson Guimarães
Clarineta: Marcos Július

Motivos - é uma bossa com caráter de trilha sonora, também composta no período de faculdade. Inspirada pela música “Café”, de Egberto Gismonti, a ideia principal é um motivo melódico com poucas notas, enquanto a harmonia se movimenta de forma mais elaborada. Isso lembra procedimentos de Tom Jobim, como em “Samba de uma nota só”, também tem influência do Egberto Gismonti. É uma música calma, com um lirismo presente desde a introdução, a voz enfatiza o desenho melódico junto da clarineta. As cordas remontam os arranjos de bossa nova dos nossos clássicos.

Voz: Clara Dias
Cordas: Robson Ferreira 
Percussão: Daniel Guedes 
Baixo: Rafa Sousa 
Violão: Delson Guimarães
Clarineta: Marcos Július
Bateria: André Limão Queiroz

Tale - nasceu com a intenção de trazer elementos da música mineira para o disco, com harmonias que sugerem esse ambiente. A voz de Thais Moreira desenha o tema remetendo à Toninho Horta, Juarez Moreira e Flávio Venturini. O nome veio de um comentário da minha filha, dizendo que soava como música da Disney. A música alterna os compassos ternário e quinário, criando uma atmosfera de contraste rítmico.

Baixo: Egberto Brant
Bateria: Levy junior
Teclado: Luadson Constâncio
Voz: Thais Moreira
Violão: Delson Guimarães
Percussão: Daniel Guedes

Não dou mole - um samba em parceria com a flautista Raíssa Anastácia. Eu fiz a primeira parte e juntos construímos a segunda. Trata-se de um samba maroto, que lembra esse lugar de escuta mais tranquila, como Minas ao Luar. O tema é bem claro, direto, e a harmonia traz alguns pontos de mudança que enriquecem sem perder a fluidez. A gravação lembra a estética do Zimbo Trio e Tamba Trio.

Baixo: Rafa Sousa
Clarineta: Marcos Július
Violão: Delson Guimarães
Teclado: Luadson Constâncio
Percussão: Daniel Guedes
Bateria: André Limão Queiroz

Rito- é uma composição que retrata muito do Hermelético, que é essa mistura. Ao longo da minha vida eu passei por experiências religiosas distintas. Eu usei o nome “rito” no intuito de chamar a atenção para a diversidade que é esse universo religioso, musical, cultural do brasileiro. Somos um e temos um pouco de cada um que passa por nós. A introdução lembra o vassi do candomblé, mas esse tipo de célula rítmica também aparece em composições cristãs. A música vai passando por baião, maracatu e outras ideias rítmicas, criando uma atmosfera de mistura. Em alguns momentos, aparece uma linguagem mais próxima do jazz fusion. Certas sonoridades que remetem à John Scofield. 

Bateria: Isac Jamba
Teclado: Luadson Constâncio
Percussão: Daniel Guedes
Baixo: Eneias Xavier
Guitarra: Delson Guimarães
Sax: Fabiano Zan

Preguento- é um frevo que nasceu de um clichê bluesístico repetitivo, bem grudento, daí o nome. Surgiu enquanto eu tocava na escola, repetindo esse motivo. A música cresce a partir disso, com uma harmonia mais elaborada. O Frevo veio a partir da escuta do repertório variado que se ouvia no rádio antigamente. Gal Costa cantando “Festa no interior” pulsava por dentro, a bateria é bem fluida e no final há uma construção com clusters que lembram o trabalho do Hamilton de Holanda. É um frevo dançante, com energia, sem ser excessivamente rápido.
Bateria: Isac Jamba
Baixo: Flavio Bugão 
Guitarra: Delson Guimarães
Acordeom: Toninho Ferragutti

Serviço:
Hermelética

Data: 24/5, domingo
Horário: 18h
Local: Teatro de Bolso do Cine Theatro Brasil Valourec (Avenida Amazonas, 315. Centro)
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia), no site Eventim
Classificação: livre