Vinte anos após os trágicos Crimes de Maio de 2006, Débora Maria da Silva, uma das fundadoras do movimento Mães de Maio, continua sua incansável luta por justiça e memória. Ela relembra a perda brutal de seu filho, Edson Rogério Silva dos Santos, assassinado na Baixada Santista, em São Paulo, em um período marcado por intensa violência do Estado e execuções que vitimaram mais de 500 pessoas, a maioria jovens negros da periferia. A data, que coincide com seu aniversário e o Dia das Mães, transformou-se em um símbolo de dor e resistência contra a impunidade.

Em maio de 2006, o estado de São Paulo foi palco de um dos episódios mais sombrios de sua história recente. Entre os dias 12 e 21, ataques coordenados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) foram seguidos por uma violenta retaliação de agentes policiais e grupos de extermínio.

Esses eventos culminaram na morte de mais de 500 pessoas, posteriormente denominados Crimes de Maio. Edson Rogério, filho de Débora, foi uma dessas vítimas; assim como a maioria dos mortos, ele era jovem, negro e residente da periferia.

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Débora recorda que, antes de 2006, seu aniversário, celebrado próximo ao Dia das Mães, era uma data de alegria. Naquele ano, 10 de maio, uma quarta-feira, marcou a cirurgia de siso de Edson Rogério, um detalhe que precede a tragédia.

O domingo seguinte foi de festa, com bolo e churrasco, a última vez que Edson Rogério cantou "Parabéns" para sua mãe. "Ele me deu um beijo e foi embora. Depois eu só vi ele dentro do caixão", relata Débora, com a voz embargada pela lembrança.

A morte de Edson Rogério ocorreu na segunda-feira, dia seguinte à celebração, quando ele parou para abastecer sua moto em um posto. Durante o velório, um jovem se aproximou de Débora e narrou os últimos momentos de seu filho.

O rapaz relatou que Edson Rogério pediu ajuda porque sua moto havia ficado sem gasolina. Ao chegar ao posto, ele avistou "duas viaturas abordando ele" e, por precaução, permaneceu à distância, observando a cena.

"Depois que fizeram a abordagem nele, os policiais saíram do posto, subiram o morro e ficaram esperando ele", conta Débora, reproduzindo o depoimento. "Mataram o meu filho encostado num muro e ele caiu sobre umas pedras, umas pedras de contenção."

Naquela fatídica segunda-feira pós-Dia das Mães, Edson Rogério foi executado com cinco tiros, resultando em morte instantânea. "Ele tomou um tiro em cada pulmão, um no coração, dois nos glúteos", detalha Débora, que sente a dor de cada disparo.

"Esses cinco tiros que eles deram no meu filho eu senti todos. Todos os tiros eu senti. Mas do coração eu senti mais, sinto até hoje, ele dói. Foi o fatal", desabafa, expressando a profundidade de seu sofrimento.

Duas décadas depois, a coincidência do aniversário de Débora com o Dia das Mães, novamente em um domingo, apenas intensifica a ferida aberta. Para ela, a data perdeu completamente o sentido de celebração.

"Não tem mais o que comemorar. Isso o Estado levou de mim perversamente", afirma. "Eu não consigo comemorar o Dia das Mães. Eu não consigo comemorar mais o dia que eu fazia aniversário. Eu não perdi só o Rogério. Eu perdi minha família."

Memória e a luta por justiça

Em 2026, Débora revive intensamente a dor de duas décadas atrás. Enquanto organiza um acervo fotográfico do filho para a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e concede entrevistas, a tristeza a assola novamente.

"Estou muito deprimida porque este ano completam-se 20 anos e pode prescrever o crime do meu filho. É Dia das Mães, meu aniversário e a cabeça está irada e eu tentando segurar minha saúde mental para poder segurar esse barco."

Logo após a morte de Edson Rogério, Débora foi fundamental na criação do movimento Mães de Maio, uma rede vital de mães, familiares e amigos unidos pela perda de entes queridos devido à violência do Estado. O grupo se tornou um pilar na busca por justiça, memória e no enfrentamento à violência estatal.

"Maio de 2006 é uma história que nós contamos como mães porque nossos filhos morreram como suspeitos", enfatiza Débora. "Jamais se merece uma dor [como esta]."

Ela destaca que o movimento rompe paradigmas ao acolher "até mãe de policial", demonstrando que "a nossa dor não se mede" e transcende divisões.

Apesar do tempo, a luta por justiça permanece inconclusiva. Recentemente, o Mães de Maio, em parceria com a Conectas Direitos Humanos, enviou um apelo urgente à Organização das Nações Unidas (ONU), denunciando a persistente omissão do Estado brasileiro nos Crimes de Maio.

O documento enviado à ONU ressalta que "nenhuma dessas execuções foi devidamente esclarecida, nenhum agente do Estado foi responsabilizado e tampouco as famílias das vítimas receberam reparação adequada."

Para Débora, a morte de Edson Rogério foi um ato de violência do Estado, resultado não apenas da execução, mas também da omissão. "Não foram os faccionados que mataram nossos filhos. Foi o crime organizado, que é o terrorismo do Estado", ela declara.

Ela argumenta que "foi uma retaliação, e nossos filhos pagaram por uma guerra que não era deles". A impunidade, segundo ela, é uma segunda morte para as mães, pois "quem nos mata, para além da morte dos nossos filhos, é a impunidade."

Débora e inúmeras outras mães vítimas de violência policial defendem que essas mortes não podem ser esquecidas ou permanecer impunes, sob pena de se perpetuarem.

"A gente não pode naturalizar essas mortes – e principalmente de morte cometida pela polícia", adverte Débora. Ela classifica os Crimes de Maio como um "massacre continuado", cujo modus operandi ainda se observa.

"Nossos filhos morreram como suspeitos e nós mostramos que nossos filhos têm nome, sobrenome e residência fixa", afirma, reforçando a humanidade e individualidade de cada vítima.

"Hoje em dia a gente vê esses crimes continuados. É o mesmo modus operandi", lamenta Débora, que, apesar da própria dor, tem acolhido e encorajado outras mães no Brasil.

Seu objetivo é que elas "não tenham medo de dizer que a polícia é violenta e também para dizer que o filho dela importa mesmo depois de morto."

Duas décadas após o massacre, as Mães de Maio persistem em sua jornada por um Brasil que valorize a memória, a justiça e seja menos violento.

"Nós queremos continuar vivas para poder parir um novo Brasil ou uma nova sociedade, porque nós parimos seres humanos", declara Débora. "Nós não parimos suspeito. O suspeito quem nos rotula é o crime organizado, que é esse Estado muito aparelhado. E isso vem desde o tempo da ditadura."

A saga de Débora e de outras mães enlutadas pelos Crimes de Maio será tema do programa Caminhos da Reportagem. O episódio "Crimes de Maio, 20 anos sem Respostas" será exibido nesta segunda-feira (11), às 23h, na TV Brasil.

FONTE/CRÉDITOS: Colaboração