No próximo dia 31 (quarta), o coletivo Mobiliza Saracura Vai-Vai participa de evento na Casa de Dona Yayá (Centro de Preservação Cultural USP) junto a ativistas, coletivos e pesquisadores para um diálogo e manifestações referentes à memória negra no Bixiga. Estarão presentes no encontro, que ocorre das 18h às 21h, o VJ Bretas, Abílio Ferreira (Instituto Tebas), Márcio Sampaio de Castro (jornalista), Gisele Brito e Pedro Mendonça (Mobilização Saracura/Vai-Vai e Instituto Peregum), Coletivo Malungo (FAUUSP), Casa Mestre Ananias e Coletivo Salve Saracura.

Este é mais um dos eventos que o grupo tem participado ou organizado nos últimos três meses. Na tarde do último domingo (21), as ruas do bairro central paulistano ficaram cheias de pessoas circulando e conhecendo mais sobre a história da região. O roteiro Circuito de Ativação de Memórias do Quilombo Saracura, contemplado em edital da Jornada do Patrimônio, evento da Secretaria da Cultura de São Paulo, percorreu locais importantes para a territorialidade negra do Bixiga.

No trajeto, os participantes puderam ouvir estudiosos, moradores, mestres de cultura popular, todos com profunda relação com o bairro. O circuito, organizado pelo GT de pesquisa do coletivo, partiu do Museu de Memória do Bixiga, passando pela escadaria da praça Dom Orione; pelo antigo terreiro de seu Livinho (baluarte do grupo de fundadores da Vai-Vai); pela Casa Mestre Ananias; pela Rua de Lazer Maria José; pelo antigo Cecan (Centro de Cultura e Arte Negra); pela rua 13 de Maio; pelo Ilê Asé Iya Osun; pela histórica quadra da escola de samba Vai-Vai na rua São Vicente; pela saída de ar da futura estação do metrô que retirou dali a agremiação; pela nascente do rio Saracura na rua Almirante Marques de Leão e pela sede do Quilombolas de Luz, grupo de capoeira emblemático do Bixiga.

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“A luta do coletivo é para que a gente consiga não só exaltar a identidade negra do bairro, como demarcar territorialmente espaços que consagram essa relação”, resumiu a professora e pesquisadora Claudia Balthazar, moradora do Bixiga.

No último dia 12 de agosto, o grupo participou de audiência pública realizada na Câmara Municipal de São Paulo, com a presença de representantes de órgãos de patrimônio municipal, estadual e nacional, a fim de fazer pressão para que as reivindicações do grupo sejam efetivadas na prática. “Como diz Luiz Gama, é uma virtude cívica a resistência”, disse na ocasião José Adão Oliveira, fundador do MNU (Movimento Negro Unificado) e integrante do Mobiliza Saracura Vai-Vai.

 

Quilombo do Saracura

 Uma crônica de 1907 do jornal Correio Paulistano descrevia assim a região do vale do rio Saracura: "É um pedaço da África. As relíquias da pobre raça, impellida pela civilização cosmopolita que invadiu a cidade depois de 88, foi dar alli naquelas furnas. Uma linha de casebres borda as margens do riacho". Passados 115 anos, a escavação para a construção do metrô encontrou ali um sítio arqueológico classificado como de alta relevância pela equipe técnica (página 43 do projeto encaminhado ao Iphan). A área em que os vestígios foram achados é apontada há décadas como o Quilombo do Saracura. Nesta região nasceu, em 1930, o Cordão Vae-Vae, continuidade dessa resistência negra. Em 2021, a quadra da escola foi deslocada para novo endereço no bairro em virtude das obras do metrô.

Da compreensão do valor desses achados para o direito à memória, à terra e à presença da população negra no bairro e na cidade, o Mobiliza Saracura Vai-Vai vem atuando pela paralisação da obra até que seja definido um projeto de preservação; por um projeto de educação patrimonial e um memorial no local; pela mudança do nome da estação de 14 Bis para Saracura/Vai-Vai; e pela permanência da população negra na região. O grupo lançou um manifesto que já conta com o apoio de mais de 150 instituições, tais como MNU, Uneafro, Casa Sueli Carneiro, Sindicato dos Metroviários de São Paulo e LabCidade FAU-USP, e uma petição que já soma quase três mil assinaturas apenas online.

O coletivo é formado por moradores do bairro, sambistas, lideranças religiosas, ativistas, políticos, entidades e pesquisadores de áreas diversas do conhecimento. De junho para cá, além da participação na Jornada do Patrimônio e da realização da audiência pública, o grupo realizou ato e projeções nas ruas do bairro; participou de debates como o promovido pelo Instituto Pólis; fez visitas técnicas ao local do sítio arqueológico e à sede da empresa responsável pela escavação; organizou uma aula pública; escreveu artigo na imprensa; panfletou nas ruas, entre outras ações que vêm se configurando como uma forma de ampliar o debate e fazer, na prática, educação patrimonial de forma comunitária e contínua.

 

Acompanhe nossas ações: @estacaosaracuravaivai

Para mais informações: estacaosaracuravaivai@gmail.com

FONTE/CRÉDITOS: Texto: GT Comunicação/Adriana Terra