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Na noite de domingo, 19, minutos antes do desfile da Escola de Samba X-9 Paulistana, que disputa o carnaval pelo Grupo de Acesso 1, o presidente Reginaldo Tadeu Batista de Souza, conhecido como Mestre Adamastor fez uma fala que foi considerada ofensiva e racista. Ao usar o microfone para cumprimentar a comunidade ele provocou os sambistas a cerrarem os punhos e levantar a mão e assim que todos atenderam ao comando ele disparou: “X-9 Paulistana levanta a mão e fecha o punho. Sabe o que significa isso? P@orr@ nenhuma, porque se a gente não cantar está morto com farofa”, aos risos. Ironicamente a escola defendeu na avenida um tema em que exaltava uma das grandes personalidades da resistência pelo samba e pela presença das mulheres no samba, Dona Ivone Lara (1921-2018).
O gesto que o ilustre dirigente exigiu aos berros que fosse repetido pelos sambistas é um símbolo de grande importância para a resistência negra contra as violências do racismo. Para ativistas é um código de saudação e apoio aos movimentos que atuam contra todo o tipo de discriminação, intolerância, xenofobia e preconceitos, mas principalmente contra o racismo. “O gesto com braço erguido e punho cerrado era utilizado por Nelson Mandela, um dos principais nomes da luta mundial contra o racismo. Ele lutou contra o apartheid e a segregação racial na África do Sul”, escreveu o sociólogo e sambista, Tadeu Kaçula, que está na mobilização para que a Liga das Escolas de Samba de São Paulo e o presidente Mestre Adamastor sejam responsabilizados por racismo.
O presidente da Liga-SP, Sidnei Carrioulo, ainda não se manifestou publicamente, mas declarou que não compactua com a fala do presidente da X-9 Paulistana e que está à disposição para se manifestar assim que for provocado formalmente. Pelas redes sociais Adamastor reconheceu o erro e confessou que “não sabia da importância do gesto” que ele banalizou. Uma petição pública online está circulando em grupos nas redes sociais e um manifesto para que as entidades sejam responsabilizadas já ganhou o apoio de entidades como Educafro, Unafro, Cojira-SP (Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial) e Faculdade Zumbi dos Palmares. “A fala do presidente da X-9 foi extremamente desrespeitosa para a história de luta do povo preto e afronta nossa existência quanto sujeitas e sujeitos de direitos”, comentou Kaçula.
O manifesto também informa que será formada uma comissão independente e multidisciplinar que atue sobre a defesa dos valores da cultura negra junto as escolas de samba de São Paulo, pois o regulamento atual da Liga das Escolas de Samba de São Paulo não inclui penalidade sobre manifestações racistas e discriminatórias (raça, cor, gênero, sexualidade e religião...), envolvendo dirigentes, componentes e torcidas das agremiações filiadas, principalmente dentro do Sambódromo.
Racismo e o embranquecimento nas escolas de samba
O presidente Adamastor podia não saber o que significava o gesto de levantar o braço e cerrar os punhos, mas a encenação infeliz foi ofensiva e pode ser enquadrada como racismo. Ele mesmo veio a público confessar o erro que cometeu, assumindo sua ignorância em relação ao tema, apesar de tantos anos atuando como mestre de bateria em escolas de samba, que são organizações políticas, que nascem em um período em que pessoas negras (homens e mulheres) foram perseguidos, violentados e humilhados porque se juntavam para cantar, dançar e produzir samba, como forma de resistir ao sistema racista.
Desde a década de 60, no Rio de Janeiro, sambistas como Cartola e Candeia alertavam para uma negociação com o sistema, que tiraria o negro do centro de uma das maiores conquistas que foram as organizações das escolas de samba. Aqui em São Paulo Geraldo Filme, Madrinha Eunice, Carlão do Peruche, Seu Nenê, Evaristo de Carvalho, ajudaram a denunciar o mal do embranquecimento na gestão das escolas de samba, indicando que não apenas o corpo negro, mas também a história das origens estava ameaçada de desaparecer da festa, que já foi negra.
Publicado por:
Claudia Alexandre
Jornalista, comunicadora de Rádio e TV. Especialista em expressões culturais afro-brasileiras; samba. escolas de samba e religiosidades de matrizes africanas, com interesse na presença de mulheres negras nestes territórios.
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