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Quinta-feira, 18 de Julho de 2024

Política

46 Anos do MNU: Caminhada da Sé ao Bixiga Relembra Lutas e Conquistas

Ricardo Martins
Por Ricardo Martins
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46 Anos do MNU: Caminhada da Sé ao Bixiga Relembra Lutas e Conquistas
Luciana Araujo
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Caminhada Celebra os 46 Anos do Movimento Negro Unificado

No último domingo (7 de julho), aconteceu uma caminhada em comemoração aos 46 anos do Movimento Negro Unificado (MNU), da Sé ao Bixiga, onde o Movimento teve sua primeira sede e celebrou seu primeiro aniversário no Teatro Oficina em 1979, em plena ditadura empresarial-militar.

Comemoração no Teatro Oficina

A caminhada foi encerrada no Teatro Oficina, em lembrança ao apoio que o MNU recebeu em 1979. No local, como parte das celebrações de um ano da morte de Zé Celso, foi exibido o documentário "Máquina do Desejo" e houve uma apresentação da Velha Guarda Musical do Vai-Vai.

O Surgimento do Movimento Negro Unificado

A fundação do MNU foi deliberada em uma reunião de entidades negras realizada em São Paulo em 18 de junho de 1978. Essa reunião contou com a participação de várias organizações, incluindo a Câmara de Comércio Afro-Brasileira, o Centro de Cultura e Arte Negra e a Associação Recreativa Brasil Jovem. O objetivo do MNU era “defender a comunidade afro-brasileira contra a secular exploração racial e desrespeito humano a que a comunidade é submetida”.

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A primeira atividade do movimento foi a organização de um ato público contra o racismo, realizado em 7 de julho do mesmo ano, reunindo cerca de 2 mil pessoas. Este ato protestava contra a discriminação sofrida por quatro jovens negros no Clube de Regatas Tietê e contra a morte de Robson Silveira da Luz, que foi torturado no 44º Distrito de Guaianases.

A Luta Contra o Mito da Democracia Racial

Desde sua concepção, o MNU tem se posicionado contra o mito da democracia racial no Brasil. Este conceito, difundido principalmente pela obra de Gilberto Freyre, sugeria que a miscigenação no Brasil resultava em uma sociedade sem racismo. No entanto, a realidade cotidiana dos negros brasileiros, marcada pela discriminação, violência policial, desemprego e precariedade, evidenciava o contrário.

O MNU foi fundamental na denúncia dessas injustiças e na promoção de ações concretas para melhorar as condições de vida da população negra. Segundo Regina Lucia Santos, uma das integrantes do MNU desde 1996, “No momento da fundação, o pessoal do movimento denunciava a inexistência da democracia racial tão falada inclusive pelo regime militar”.

Influências e Filosofias Orientadoras

O surgimento do MNU foi influenciado pelas lutas a favor dos direitos dos negros nos Estados Unidos, pelos movimentos de libertação dos países africanos como Guiné-Bissau, Moçambique e Angola, e por correntes de pensamento marxista. Neste contexto, o MNU inicialmente assumiu um discurso politizado radical, compreendendo a luta contra o racismo como parte da luta contra o capitalismo.

A Expansão e a Relevância do MNU

O MNU rapidamente expandiu sua atuação, abrindo núcleos em vários estados e ampliando suas filosofias orientadoras. Entre seus projetos e atividades estavam a denúncia do mito da democracia racial, a conscientização política da população negra e a promoção do acesso dos negros a todos os níveis educacionais.

Conquistas Significativas

Educação e Cultura

Uma das grandes vitórias do MNU foi a promulgação da Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas. Esta lei também instituiu o Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, em homenagem a Zumbi dos Palmares. Além disso, o movimento foi crucial na aprovação da Lei de Cotas (Lei 12.711/12).

Inclusão na Constituição

O MNU teve um papel fundamental na inclusão dos direitos dos povos quilombolas na Constituição de 1988. Apesar dos avanços, ainda há muito a ser feito, pois muitos territórios quilombolas aguardam demarcação. A luta do movimento continua a ser vital para garantir que esses direitos sejam plenamente reconhecidos e implementados.

Figuras Proeminentes do MNU

Lélia Gonzalez

Lélia Gonzalez foi uma das intelectuais mais importantes do movimento. Formada em história e filosofia, Lélia integrou elementos de psicanálise, marxismo negro e feminismo em sua obra, destacando as particularidades vividas pela mulher negra. Ela foi uma das fundadoras do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras e do Coletivo de Mulheres Negras N’Zinga, além de ter participado ativamente do MNU.

Abdias do Nascimento

Abdias do Nascimento foi um multifacetado pensador, ator, poeta e ativista. Ele fundou o Teatro Experimental do Negro em 1944, com o objetivo de resgatar os valores da cultura africana. Abdias também é conhecido por sua tese sobre o “genocídio do negro brasileiro”, que retrata a contínua marginalização e violência contra os negros no Brasil.

Milton Barbosa

Milton Barbosa, conhecido como “Miltão”, foi uma figura central no MNU desde a sua fundação. Envolvido com o movimento negro e o samba, ele foi fundamental na articulação entre o MNU e grupos como os Racionais MC’s nos anos 90. Milton continua a ser uma voz importante na luta contra o racismo e na promoção da igualdade.

Desafios e Perspectivas Atuais

A ascensão da extrema direita tem imposto desafios significativos ao movimento negro. A retirada de direitos históricos, como a ameaça às cotas nas universidades e nos concursos públicos, tem sido um ponto de preocupação. Além disso, a reforma da previdência afeta diretamente a população negra, que tem menor expectativa de vida e, portanto, menos chances de se aposentar.

 

Foto: Luciana Araujo

Foto: Luciana Araujo

Foto: Luciana Araujo

Foto: Luciana Araujo

Arquivo MNU

Integrantes da Marcha do Movimento Negro Unificado em São Paulo, em 1979
Integrantes da Marcha do Movimento Negro Unificado em São Paulo, em 1979
 
Fundadora e coordenadora regional do Movimento Negro Unificado, Regina Lúcia dos Santos e seu companheiro Milton Barbosa, na escadaria do Theatro Municipal, em São Paulo
Fundadora e coordenadora regional do Movimento Negro Unificado, Regina Lúcia dos Santos e seu companheiro Milton Barbosa, na escadaria do Theatro Municipal, em São Paulo

 

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Ricardo Martins

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