Caatinga: entre 1º e 3 de julho, a segunda edição da Caatinga Climate Week colocou no centro do debate climático quem vive no Semiárido. Pesquisadores, agricultores familiares, lideranças indígenas, quilombolas, representantes de organizações civis e gestores públicos trocaram o auditório por visitas de campo no Agreste pernambucano para compartilhar práticas e demandas.

Relatos de campo e conflitos territoriais

Os participantes saíram do Centro Cultural Cais do Sertão, no Recife, e percorreram municípios do Agreste, aproximando a discussão climática da experiência cotidiana. Entre as histórias ouvidas, a de Seu Simão, que relatou a mudança do cenário de sua antiga propriedade em Caetés após a instalação do Parque Eólico Ventos de São Clemente, foi citada como emblemática dos impactos sociais e de saúde que acompanham alguns projetos de energia.

Mariana Belmont, assessora de Clima e Racismo Ambiental de Geledés – Instituto da Mulher Negra, destacou que a visita ao território evidenciou que a crise climática se manifesta no dia a dia das pessoas, nos vínculos com a terra e nas formas de pertencimento. Para ela, ouvir essas vozes foi o principal sentido do encontro.

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Tecnologias sociais e saberes locais

Durante as atividades, foram apresentadas soluções desenvolvidas nas próprias comunidades: cisternas construídas em mutirão, bancos comunitários de sementes, quintais produtivos, barragens subterrâneas e sistemas agroflorestais adaptados ao Semiárido. Essas práticas foram descritas como resultado de observação e experiência acumulada por gerações que aprenderam a conviver com a seca.

Adriana Ramos, diretora-executiva do Instituto Socioambiental (ISA), ressaltou que a força dos coletivos organizados é central para a construção de estratégias de adaptação. Segundo ela, as iniciativas visitadas mostram caminhos próprios para reduzir vulnerabilidades diante de secas prolongadas e eventos extremos.

Gênero, raça e a proposta de justiça territorial

O papel das mulheres — especialmente mulheres negras e indígenas — foi enfatizado como liderança e guardiãs de saberes. Ramos afirmou que essas mulheres articulam redes de solidariedade, organizam produção de alimentos e difundem tecnologias sociais que transformam a vida de muitas famílias.

Carlos Magno, coordenador no Centro Sabiá e um dos idealizadores da Caatinga Climate Week, defendeu a criação de uma plataforma permanente de visibilidade para quem vive no Semiárido e destacou o recorte de gênero e raça da população que habita o bioma. Para ele, preservar a cultura local e os modos de vida está diretamente ligado à preservação do território.

Ao aproximar ciência e saberes tradicionais, participantes do encontro sublinharam que não há hierarquia entre esses conhecimentos e que os territórios frequentemente produzem evidências antes mesmo de aparecerem em relatórios técnicos. A programação buscou mostrar que a Caatinga, que ocupa cerca de 11% do território brasileiro, não é apenas um lugar de impactos, mas também um laboratório vivo de adaptações climáticas.

Foto: Geledés Instituto da Mulher Negra