Os dados preliminares do Censo 2022 (atrasado desde 2020) divulgados nesta sexta-feira, 6, pelo IBGE em cerimônia realizada na sede do órgão no Rio de Janeiro, traz dados importantes em relação aos seguidores das religiões afro-brasileiras (umbandas e candomblés), espíritas e indígenas, população que no último censo 2000-2010 tinham pouca presença ou estavam invisibilizados, como é o caso das tradições indígenas. Os dados, que deveriam ser divulgados na sua totalidade em 2020, já estão disponíveis no portal do instituto em conjunto e tabelas, organizadas por religião declarada, sem identificação de subgrupos ou denominações específicas. Estão detalhados por cor ou raça, pertencimento étnico-indígena, por grupos de idade, características dos moradores e por nível de instrução.  De acordo com informações do IBGE, o censo demográfico, que é realizado a cada 10 anos, sofreu atraso por fatores como a pandemia e problemas orçamentários.  Além  de ter ocorrido interferência direta do governo federal, na gestão anterior.

As religiões afro-brasileiras (Umbanda e Candomblé) cresceram 251,9% em relação a 2010 e saíram da marca de 0,3% dos últimos censos, passando a ocupar 1,0% em 2022, com aumento de 0,7%.

Pela primeira vez as religiões Umbanda e Candomblé, que foram agrupadas, e Espírita aparecem oficialmente como grande grupo religioso brasileiro, contradizendo previsões de que pelo menos as religiões afro-brasileiras, que apontaram estagnação negativa em 2010,  estariam em extinção.

Publicidade

Leia Também:

No que diz respeito às religiões majoritárias do grupo católico e evangélico houve a confirmação de que o catolicismo continua predominando no país, embora em declínio, com redução de 8,3 %, saindo de 65,0% em 2010, para atuais 56,7%, uma redução menor do que na década anterior, que foi de 9%.  Porém a expectativa de curva contínua de crescimento das religiões evangélicas não aconteceu, mostrando um arrefecimento da conversão evangélica em relação ao período anterior.  O grupo evangélico cresceu 5,2%, passando de 21,7% em 2010, para 26,9%, ainda bem distantes dos católicos.

Na distribuição por grandes regiões do Brasil temos que o catolicismo ainda é maioria em todas as grandes religiões do país, com maior concentração no Nordeste (63,9%), seguido do Sul com 62,4%. Os evangélicos têm maior presença no Norte (36,8%) e no Centro-Oeste (31,4%), sendo que 23,5% é de pessoas brancas, 30%  pretas, 29,3% pardas e 32,% indígenas.

Os que se declararam espíritas estão mais concentrados na região Sudeste, com 2,7%, sendo que a maioria das seguidoras é Mulher (60,6%). Ainda chama atenção a grande parcela autodeclarada Sem-Religião, 10,5%, que se concentram mais no Sudeste, sendo que os Homens (56,2%) foram os que mais se declararam não seguir religião alguma.

A vitalidade das afro-brasileiras

                Havia, com razão, muito expectativa entre os seguidores das religiões afro-brasileiras e tradições de matrizes africanas, desde a divulgação dos dados do censo de 2010. Na ocasião, o sociólogo Reginaldo Prandi em uma entrevista à Revista Instituto Humanitas Unisinos (agosto 2012) fez uma análise pessimista, chegando a decretar o desaparecimento eminente da Umbanda, em relação ao Candomblé. Ele destacou estagnação e o declínio dessas religiões, frente ao crescimento vertiginoso do grupo evangélico. Na época o sociólogo ainda chegou a afirmar que o quadro era “desolador”, afirmando:  a Umbanda “mal se mantêm nas pernas”. Disse ainda, que as afro-brasileiras se apoiavam no pequeno crescimento do candomblé e que a tendência para o próximo censo seria de perda de seguidores.

                Porém, contrariando essa análise, o que ocorreu foi o crescimento destas religiões, mesmo que pequeno, apontando a vitalidade do campo religioso afro-brasileiro, apesar do cenário aterrorizante vivido pelos seguidores, que não se resumem à Umbanda e Candomblé. Existem hoje  mais de 20 denominações diferentes deste campo, de acordo com a região do país. Atualmente o interior do grupo destacado, Umbanda e Candomblé, dada à diversidade de práticas, já é referido no plural: umbandas e candomblés.  

Entre as diversas tradições de matrizes africanas e indígenas no Brasil temos, por predominância: Babaçuê – Pará e Amazônia; Batuque – Rio Grande do Sul e Amazônia; Candomblés – Bahia, RJ e SP; Casa das Minas – Maranhão e Pará;  Catimbó (Jurema) – Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará;  Egungun – Bahia (Ilha de Itaparica); Jarê Chapada Diamantina (BA); -Macumba ou Omolocô – RJ; Pajelança – Amazônia e Bahia; Quimbanda – RJ e SP Saravá – Mato Grosso; Tambor – Pará;  Terecô - Maranhã (Codó); Umbandas – RJ e SP; Xambá – cidades do Nordeste;  Xangô – Sergipe, Alagoas e Pernambuco.

                O candomblé também é diverso, se considerarmos que ele se reconhece por  nações (nagô, ketu, jeje, angola, congo, ijexá, efon, caboclo...), de acordo com a origem étnica. Já a Umbanda também se apresenta segmentada, independente da região do país, em: Almas e Angola, Branca, Carismática, Daime, Esotérica, Iniciática, Omolocô, Popular, Racional, Sagrada, entre outras.

               Umbanda e candomblé são as religiões mais afetadas pela intolerância religiosa e pelo racismo religioso no Brasil. De acordo com dados da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos, por meio do Disque 100, entre 2023 e 2024, as denúncias de ataques a esse segmento aumentaram 66,8%, saindo de 1.481 registros para 2.742. A mais atingida seria a Umbanda com 151 denúncias, seguida do Candomblé com 117. No Brasil o racismo religioso é crime previsto na Lei 7716\1989. Foi em 2023, que a lei 14.532 equiparou a injúria racial ao crime de racismo.

Religiões afro-brasileiras em números

                Desde que o IBGE começou a incluir a categoria religiões afro-brasileiras no censo demográfico, os dados apontavam certa estagnação entre um período e outro: 1980 a 2010: 0,57%, 0,44%, 0,34% e 0,30%, observando que a pesquisa é realizada de 10 em 10 anos. Essa sub-representação pode estar ligada a diversos fatores sociais, o principal deles o processo de formação da sociedade brasileira, estruturada no sistema escravista indígena e negro; a perseguição por parte da igreja católica; ataques de grupos evangélicas e o racismo religioso.

             Tem ainda a questão da dupla ou tripla pertença (pessoas que transitam por várias religiões e ocultam frequentar cultos afro-religiosos); e das que frequentam terreiros e ao responderem o questionário do censo afirmam ser católicas ou espíritas. Se dizer espírita por muito tempo (ou ainda hoje) foi uma forma de se proteger da violência religiosa.             Por isso, os dados do IBGE surpreendem quando incluem Espírita, Umbanda e Candomblé e Tradições Indígenas na categoria de grandes grupos de religião no Brasil.

                Umbandistas e candomblecistas estão mais concentrados nas regiões Sul (1,6%) e Sudeste (1,4%).

                Na divisão segundo cor ou raça, com pessoas acima de 10 anos de idade, entre umbandistas e candomblecistas, os maiores percentuais eram de brancos (42,9%) e pardos (33,2%). O analfabetismo neste grupo está entre as menores taxas, com apenas 2,4% de analfabetos. Quanto a instrução possui o maior grupo de pessoas com o ensino médio completo e superior incompleto (39,9%) e o segundo maior grupo com nível superior completo (25,5%), abaixo apenas dos Espiritas, que possui 48% dos autodeclarados com maior instrução.

 

As tradições indígenas

 

As tradições indígenas apareceram de forma agrupada e foram pesquisadas através da pergunta “Qual sua crença, ritual indígena ou religião”, de forma automatizada. Além disso, o pertencimento étnico-indígena também foi detalhado. Neste grupo 50,9% dos homens, uma parcela significativa, se declarou sem-religião, apontando que as práticas tradicionais ainda são preservadas nestas comunidades tradicionais. Embora no geral, uma boa parcela, 32,2% dos indígenas tenham se autodeclarado evangélicos.

Este grupo possui os percentuais mais elevados para os sem instrução e com ensino fundamental incompleto (53,6%).

FONTE/CRÉDITOS: Claudia Alexandre