No Dia do Grafite, celebrado em 27 de março, a trajetória da artista Soberana Ziza evidencia a força da arte urbana como linguagem de transformação social, ocupação de territórios e construção de novas narrativas dentro da arte brasileira contemporânea. Reconhecida por seus murais de grande escala e por sua atuação na cultura hip hop, a artista participou recentemente da exposição “Jogo de Cena – obras do acervo da Pinacoteca de São Paulo”, realizada na Galeria Magalu, no Conjunto Nacional, onde apresentou o painel “Onde a Linha Equilibra o Eu”, obra comissionada para o Espaço Pina. A participação marcou um momento simbólico ao levar para a Avenida Paulista uma produção que nasceu na rua, na periferia e nos movimentos culturais independentes.

A rua como origem e como linguagem


Introduzida ao grafite em 2006, no Centro Cultural da Juventude, na zona norte de São Paulo, Soberana Ziza construiu sua trajetória a partir da arte urbana, desenvolvendo murais em escolas, centros culturais e espaços públicos, sempre com forte ligação com o hip hop, com processos educativos e com a valorização das periferias. Ao longo dos anos, passou a tensionar os limites entre o grafite e a arte contemporânea, mantendo a rua como ponto de partida para pesquisas que abordam memória, território e identidade. “A rua foi onde tudo começou e continua sendo o meu ponto de partida. O grafite é esse lugar democrático, onde a gente constrói memória, identidade e cria pontes com as pessoas todos os dias”, destaca a artista Soberana Ziza.

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Território, memória e reescrita da cidade

A relação com o território também se manifestou em obras públicas que conectaram arte, história e pertencimento. No grafite “Umbigada”, a artista resgatou a memória do bairro Casa Verde ao articular narrativas locais e identidade negra, estabelecendo um diálogo com as reflexões da exposição “Território de Permanência”, em cartaz no Centro Cultural São Paulo até o dia 3 de maio.

Na obra “Na terra está nossa ancestralidade”, localizada na região do Baixo do Glicério, a artista abordou o apagamento da cultura negra no bairro da Liberdade, resgatando histórias invisibilizadas e propondo uma reconexão com as raízes ancestrais daquele território. A produção também ganhou projeção internacional ao ser apresentada na exposição Confluence Tokyo-SP, realizada em Tóquio, no Japão, reunindo Soberana Ziza ao lado de outros 11 artistas brasileiros e um japonês com raízes na street art.

Em Heliópolis, desenvolveu um mural em que revisitou o território e propôs novas leituras sobre a ocupação urbana, reconstruindo simbolicamente histórias e vivências da comunidade.

Essa atuação se ampliou em iniciativas autorais como o projeto “ESTAMXS VIVXS – MULHERES EMERGENTES”, idealizado pela artista para promover o muralismo em grande escala na periferia. A proposta reuniu artistas negras de diferentes linguagens para a criação de obras que resgataram a história e a cultura negra, com foco na preservação de memórias e no fortalecimento da presença feminina na cidade.

Realizado no CEU Vila Atlântica, o projeto também incluiu ações formativas com alunos e professores, promovendo debates sobre gênero, raça e direito à cidade. No mesmo espaço, Soberana Ziza realizou a obra “Matriarcado”, a maior empena de sua carreira, com cerca de 20 metros de altura, em que abordou o papel central das mulheres negras na sustentação das comunidades periféricas.

Ancestralidade, mulheres negras e reconstrução de narrativas

Essa pesquisa também esteve presente na exposição individual “Mulheres – Raízes da Conexão”, realizada em 2021 na Galeria Choque Cultural e na Casa PretaHub, em São Paulo. Nas mostras, a artista investigou a ancestralidade da mulher negra paulistana e o apagamento histórico de personagens fundamentais para a construção da cidade, conectando monumentos, territórios e narrativas femininas por meio de pinturas, lambe-lambes, performances, tecidos e instalações. O projeto partiu de uma pesquisa histórica sobre a presença negra na capital e propôs reconectar passado e presente por meio da arte, mantendo a linguagem do grafite como base de sua produção, mesmo quando expandida para outros suportes.

Em seus trabalhos, a figura feminina apareceu como protagonista e condutora de novas histórias, refletindo temas como ancestralidade, resistência, memória coletiva e reconstrução de identidades. A artista também passou a incorporar materiais como tecidos e camadas translúcidas, criando composições que remetiam à sobreposição de tempos e histórias, sem abandonar a estética construída nas ruas.

Memória e resistência 

A artista também participou da exposição “Memórias do Futuro: Cidadania Negra, Antirracismo e Resistência”, realizada no Memorial da Resistência de São Paulo, que apresentou um panorama histórico de mais de um século de lutas por direitos da população negra no estado, abrangendo o período de 1888 até os dias atuais.

Com curadoria do sociólogo e escritor Mário Medeiros, a mostra reuniu fotografias, cartazes, jornais, documentos históricos e obras de arte para evidenciar o papel da população negra como força central na resistência à repressão e à violação de direitos no Brasil. Organizada em oito eixos temáticos, a exposição abordou desde a ocupação de territórios e a força do associativismo negro até a imprensa, a literatura, os espaços de sociabilidade e as lutas contemporâneas marcadas pelo enfrentamento ao racismo estrutural.

A participação de Soberana Ziza nesse contexto reforçou a conexão entre o grafite e as narrativas de resistência, inserindo a arte urbana dentro de um debate histórico mais amplo sobre memória, cidadania e direitos humanos. Ao lado de outros artistas e coletivos, sua presença contribuiu para ampliar as formas de representação da cultura negra dentro de instituições museológicas.


Hip hop, legado e referências femininas

A artista também integrou a exposição “HIP-HOP 80’sp – São Paulo na Onda do Break”, em cartaz no Sesc 24 de Maio até março. Na mostra, Soberana Ziza retratou figuras fundamentais da cultura hip hop, como Rose MC e Sharylaine, destacando a importância das mulheres na construção e consolidação do movimento no Brasil.

Trajetória, reconhecimento e projeção internacional


Além disso, a artista participou da série “As cores de São Paulo”, produzida para a Embaixada do Brasil em Pequim, ampliando o alcance internacional de sua produção. Indicada ao Prêmio PIPA 2023, um dos principais reconhecimentos da arte contemporânea no Brasil. 

Soberana Ziza, nome artístico de Regina Elias, é multiartista e pesquisadora, com formação em Design de Moda, Artes e Gestão Pública. Desde 2006, desenvolve uma pesquisa estética sobre negritude e feminino a partir de uma abordagem afrofuturista, investigando o apagamento da cultura negra em São Paulo e propondo, por meio da arte, a reconstrução dessas narrativas com a mulher como protagonista.