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Um relatório recente, intitulado "O Circuito Espacial do Garimpo Ilegal no Pós-Desintrusão" e lançado hoje (11) pela Universidade do Estado do Pará (UEPA) em parceria com o Instituto Mãe Crioula, revela uma nova e preocupante estratégia do garimpo ilegal nas Terras Indígenas Munduruku, no Pará. Após a intensificação das ações de desintrusão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os garimpeiros estão trocando equipamentos pesados por maquinário menor e menos visível, uma tática para evadir a fiscalização e preservar seu alto faturamento.
A pesquisa da UEPA também destaca a complexa rede financeira que sustenta essas operações. O mesmo sistema que financia facções criminosas, conforme exposto em operações como a Carbono Oculto, é o responsável por manter as estruturas de extração mineral.
Esse suporte financeiro tem borrado a linha entre o garimpo artesanal e a mineração industrial de grande escala. Recentes investigações da Polícia Federal já revelaram esquemas intrincados envolvendo fundos de investimento, lavagem de dinheiro e organizações criminosas por trás dessas atividades.
A mão de obra no garimpo ilegal
A investigação se aprofundou na origem da força de trabalho empregada nos garimpos ilegais do Pará, identificando uma predominância de maranhenses. Esse padrão reforça uma tendência de migração intrarregional que se estabeleceu desde a década de 1990.
Esses trabalhadores frequentemente se deslocam dentro da mesma região, alternando suas atividades entre a agricultura e o garimpo, em busca de sustento.
A equipe de pesquisa analisou as dinâmicas socioespaciais em municípios-chave como Jacareacanga e Itaituba, regiões onde a etnia Munduruku reside. Por anos, os Munduruku têm denunciado as graves violações de direitos decorrentes da exploração de suas terras por invasores não indígenas.
Os pesquisadores enfatizam que as redes econômicas que sustentam os pontos de garimpo se estendem muito além de postos de combustíveis, aeronaves e embarcações. O ecossistema local é complexo: pequenos comércios e prestadores de serviço da região garantem a operação dos garimpos, ao mesmo tempo em que dependem financeiramente deles.
Fabiano Bringe, um dos autores do estudo, cunhou o termo "minero-dependência" para descrever essa interdependência crítica.
A adesão de muitos indígenas ao garimpo é impulsionada pela escassez de alternativas de renda e sustento, uma realidade que deu origem ao bairro dos Alagados, em Jacareacanga. Este município, à margem do rio Tapajós, tem uma forte presença Munduruku, sendo o nome da etnia o sobrenome mais comum na cidade.
De acordo com o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os indígenas representam 59,1% dos habitantes locais, evidenciando a profunda conexão da comunidade com a região.
"Ocorre uma desterritorialização desses povos, que se deslocam para periferias adjacentes, formando bairros precarizados com condições de saneamento extremamente deficientes, semelhantes às observadas em grandes e médias cidades", explica Fabiano Bringe.
Os jovens indígenas, por sua vez, muitas vezes veem o esforço físico exigido pela agricultura como pouco atrativo. Bringe ressalta que, embora a atividade garimpeira seja igualmente árdua, "a renda obtida é significativamente superior àquela proveniente da agricultura, pesca ou artesanato".
Em 2023, o salário médio dos habitantes da cidade alcançou 2,6 salários mínimos, com 2.442 pessoas empregadas formalmente. Este cenário contrasta drasticamente com 2010, quando quase metade da população (48,6%) vivia com uma renda mensal per capita de até meio salário mínimo.
Impacto econômico e ações de combate
Dados da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) ilustram o crescimento econômico e logístico na região. Entre 2014 e 2023, o número de caminhões em Jacareacanga quase triplicou, passando de 25 para 69 veículos, acompanhado de um aumento expressivo em caminhonetes e motocicletas.
No mesmo período, o Produto Interno Bruto (PIB) municipal registrou um salto significativo, de R$ 177.489 para R$ 625.760. A expansão econômica também se reflete no aumento de estabelecimentos comerciais com vínculo empregatício, que passaram de 10 para 34 entre 2010 e 2021, e de serviços, que subiram de 6 para 14.
Em resposta à crescente ameaça, o governo federal implementou diversas ações de desintrusão visando proteger o povo Munduruku. A Polícia Federal, por exemplo, deflagrou a operação Munduruku Log em fevereiro de 2025, resultando no bloqueio de R$ 24 milhões de suspeitos.
Previamente, em dezembro de 2024, a operação Flygold II investigou um grupo responsável por movimentar impressionantes R$ 6 bilhões através do comércio ilegal de ouro, evidenciando a magnitude do problema.
Este abrangente levantamento da UEPA, que analisa o período de 2017 a 2023, foi possível graças ao apoio do Ministério dos Povos Indígenas e de outras esferas do governo federal, reforçando o compromisso com a proteção das comunidades indígenas e seus territórios.
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