Em suas buscas descobriu que havia uma recém inaugurada instituição dedicada a pele negra e pigmentada nos Estados Unidos. Se inscreveu no Congresso do American Academy of Dermatology, em San Francisco, em 2006, e já de cara foi brindada com uma aula de 7 horas ininterruptas sobre as particularidades das peles de cor. “Era tanta informação, tantas possibilidades, que eu comecei a chorar durante a aula, porque na hora eu entendi que o que acontecia no Brasil era racismo, não só descaso”, concluiu, alertando que a classe médica brasileira não acreditava no negro como cliente, com auto-estima suficiente para querer se cuidar.

 
Katleen Conceição, dermatologista — Foto: Reprodução Instagram

Katleen Conceição, dermatologista — Foto: Reprodução Instagram

Depois de muitas viagens, congressos e excesso de bagagem com livros caríssimos na mala, encontrou um caminho que consolidou seu trabalho de vez: "A pele negra sempre foi tratada topicamente, o máximo eram os peelings. Mas às vezes precisa de uma britadeira para atingir camadas mais profundas, e foi quando eu comecei a estudar o laser, um grande desafio para mim, mas que as pessoas tinham pânico só de pensar em aplicar em peles escuras".

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Hoje, a pioneira e principal referência do setor no Brasil, vibra ao ver o tamanho do movimento que começou. A relação com a estética e com o autocuidado da população negra no Brasil mudou de posição e, para além dos resultados de mercado, nasceu um novo olhar sobre a qualidade da pele, dos cabelos e das possibilidades que existem neste universo.

 
Katleen Conceição, dermatologista — Foto: Reprodução Instagram

Katleen Conceição, dermatologista — Foto: Reprodução Instagram

 

Pioneirismo

 

"Eu era professora de medicina estética e estava no setor de peeling. Isso há 18 anos. Foi quando eu comecei a receber muitos pacientes negros, indicados por outros dermatos, porque acreditavam que eu podia resolver aqueles problemas. Mas porque eu sou negra, e não porque eu tinha essa especialização. Ali eu entendi que os dermatologistas não sabiam tratar pele negra. Nem eu! Nunca tinha me caído a ficha de que a nossa pele era diferente, olha que absurdo! Na mesma época, tinha um grupo de médicos que estava indo para os Estados Unidos, para o encontro anual da AAD – American Academy of Dermatology. E uma dermatologista me falou: " você sabia que lá tem uma seção que estuda só pele negra?". Eu fiquei muito impressionada e mais estimulada a ir para esse congresso, que em 2006 foi em San Francisco. Quando eu cheguei, fiquei procurando pessoas negras para entender como esses estudos funcionam. E foi aí que descobri que existia uma sociedade, que na época ainda era pequenininha, a Skin of Color Society, na qual hoje eu sou mentora, inclusive. Comecei a conversar, disse que vinha do Brasil e que não tínhamos nada parecido e eles me convidaram para assistir uma aula – de 7 horas! Em geral as palestras têm uma média de uns 20 minutos, e eu ficava pensando que tanto conteúdo teria para uma aula tão longa. A sala estava vazia, não tinha ninguém. Brasileiro então… Nenhum. Tinham indianos, asiático, porque os estudos são relativos a peles pigmentadas. E eu fui para a aula com uma folhinha, trouxa que era, pensei que seria pouca coisa para anotar. Só que tava difícil de acompanhar, era coisa demais. E aí me disseram para ficar tranquila porque tinha um livro sobre o assunto. E eu pensei: Oi? Livro? Era tanta informação, tantas possibilidades, que eu comecei a chorar durante a aula, porque na hora eu entendi que o que acontecia no Brasil era racismo, não só descaso. É racismo estrutural”.

Autocuidado para pele preta

 

Eu tenho uma visão muito privilegiada do cenário de autocuidado das pessoas de pele negra porque durante muito tempo eu só atendia pacientes brancos. Os poucos negros que eu atendia era sobre acne, psoríase, alopecia de tração, doenças mesmo, nada sobre cuidado para autoestima. Quando eu vi nos Estados Unidos que era muito diferente eu decidi que iria estudar. Já voltei de lá lotada de livros, alguns supercaros. Meu pai e meu marido me ajudaram a pagar. Os dois livros principais de pele negra custavam 300 dólares cada um. E na volta eu entendi a necessidade de estudar, de me especializar. Foi então que surgiu a ideia do blog de dermatologia para pele negra, que eu mantenho até hoje. Isso me ajudou a chegar em mais pessoas. Na época, a irmã da Taís Araújo, a Cláudia, que é ginecologista, fez contato comigo. Disse que a mãe delas estava com uma mancha no rosto, um melasma grande, e tinha visto que eu estava tratando pele negra. Foi aí que tudo começou. A Mercedes veio para mim com um melasma gravíssimo para tratar. Eu contei que tinha voltado do congresso de dermatologia, estava estudando e ela: ah, então está iniciando? Eu respondi que iniciando não. Que já era dermatologista há uns 10 anos, mas que estava me especializando em pele negra, voltei desse congresso, trouxe muita informação.. Aí ela disse: bom, se só tem você mesmo, vamos fazer o quê? [risos]. E foi assim que os meus estudos começaram, algumas consultas ela pagava, mas ela foi minha voluntária em vários testes, principalmente nos lasers. Testava com ela também os produtos de uniformização de pele. Em um ano ela já estava ótima, e ficou enlouquecida! Começou a me oferecer vários famosos para trazer para o consultório. Claro que pensei na Taís Araújo, mas ela tinha a pele muito boa, não tinha nenhum problema. Então eu pedi para tratar o Lázaro. Ela também trouxe a Isabel Fillardis, que é amiga da família e tinha uma questão grave de pele que eu também consegui curar. E ainda ela me levou a uma premiação, o troféu Raça Negra, e me apresentou todo mundo. As pessoas não deram a mínima, né? Fui muito ignorada. Ignorada. Mas foi o começo de relacionamento com muita gente legal que ajudou a divulgar o meu trabalho".

Da arte à academia

 

Depois da Mercedes, no Rio, teve a Glória, mãe do Thiaguinho, que me apresentou muitas pessoas importantes em São Paulo. Ela tinha olheiras, alguns outros probleminhas na pele e também começou a me divulgar no meio artístico paulistano. Por isso eu tenho tantos pacientes artistas. E foi por causa do meio artístico que eu consegui ser reconhecida academicamente. Eu sempre amei dar aula, mas o meio acadêmico de dermato não me chamava. Então eu fiquei dando aulas na medicina estética, que não era reconhecida pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, mas que foi um local onde eu tive oportunidade para dar aula, eu adoro! Lembro que eu estava num congresso de dermatologia e um médico, dr. André Mateus, professor de pneumo, conversou comigo e começou a me chamar para dar aulas nos congressos deles. Só assim a Sociedade Brasileira de Dermatologia começou a me chamar. Mas eu comecei a crescer, teve a explosão da internet, atendendo gente famosa, redes sociais… na época eu sofri um preconceito muito grande na Sociedade. Hoje em dia todo mundo faz dancinha, rebola e ninguém reclama.

 

 

Uma questão de física

 

"Eu comecei a atender pele negra geral, doenças, alergias. Só que eu via que só com o tratamento tópico eu não conseguia ter o resultado tão rápido quanto eu precisava. Gente, com peeling não dá, essa camada córnea não vai eliminar esse melanócito do jeito que eu quero. A pele negra sempre foi tratada topicamente, o máximo eram os peelings. Mas às vezes precisa de uma britadeira para atingir camadas mais profundas, e foi quando eu comecei a estudar o laser, um grande desafio para mim, mas que as pessoas tinham pânico só de pensar em aplicar em peles escuras. E complexo mesmo, precisa de aparelho, física, alvo água, alvo pigmento, alvo… Nossa, vou ter que estudar tudo de novo... É uma coisa que me tirava da zona de conforto, até hoje me tira da zona de conforto, estudar laser é uma coisa bem intensa. É muito técnico, muita física. Um dos pilares para você fazer medicina é física. Física e biologia. Biologia você vê, é humano, mas física é mais difícil de relacionar, muita coisa não se enxerga. Então comecei a testar muito o laser em mim para entender. Me queimei muito, até hoje eu tenho umas lesões na axila com queimadura. Nesse meio tempo eu abri um ambulatório em Bom Sucesso, aqui no Rio. E aí eu também convoquei umas empresas para me dar apoio de laser, então lá eu fiz muito laser na população, Manguinhos, Fiocruz. E comecei a me aprofundar nos estudos de laser. O básico eu sabia, mas para aplicar na pele negra eu fazia correlação, mas ninguém sabia muito… Conversei com muitas dermatologistas. A Valéria Campos, de São Paulo, sabia muito. A Paula Bellotti, aqui no Rio, conversava muito comigo sobre laser. Fui para os Estados Unidos de novo e quando eu voltei de lá eu fui ver que a Paula, que tinha todos os aparelhos que eu queria fazer na clínica dela. Ficamos conversando durante um tempo até que ela me chamou para atender na clínica dela - onde estou até hoje. Eu sabia que seria o laser que iria curar meus pacientes. Preciso curar as pessoas. Preciso de toda essa tecnologia. Aí eu fui com a Paula para um curso de laser em Boston. Tinha tanta informação que era difícil de acompanhar. Eu saía exausta das aulas. Mas foi então que pensamos em criar o setor de Pele Negra dentro do Grupo Paula Bellotti".

Poder de consumo dos pacientes negros

 

"Desde quando eu decidi focar o meu trabalho em pacientes negros eu sou criticada, porque as pessoas não acreditam nessa população como público lucrativo. Mas eu estou aqui provando que sim! Sempre tive fluxo de pacientes, diferente em algumas fases, claro, mas sempre com fluxo. E ao contrário do que muita gente pensa, os famosos, as celebridades, pagam por seus tratamentos, sim. Mas o público em geral, independentemente da raça, da classe social, quer resolver seu problema de pele, é uma questão importante para muita gente. As pessoas priorizam, se organizam, e fazem seus tratamentos. Tem gente que passa 15 anos tratando e não consegue resolver o problema. Chegam em mim e são diretos: quero resolver. Quantas sessões? Seis. Tá bom, vamos fazer seis sessões. Então esse papo de que ah, eu não tenho condições, é para dormir. Eu vivo isso todos os dias. A relação com a autoimagem mudou, as pessoas querem se sentir bem. Existe uma falsa ideia de que o pobre tem medo, de que as pessoas não procuram, não querem gastar dinheiro com isso… A população se organiza e faz os tratamentos. A partir do primeiro governo Lula as pessoas começaram a ter mais condições, mais acesso, economizar, investir. Claro que tem épocas mais oscilantes. Hoje, uma sessão fica em média uns R$1,8 mil. Eu trabalho majoritariamente com pele negra – não só, mas a maioria – e a minha agenda está sempre em lista de espera".

FONTE/CRÉDITOS: Revista Marie Claire.