O Supremo Tribunal Federal, ao longo de 134 anos, teve cerca de 170 ministros.
Desses, 165 homens e apenas 3 mulheres.
E, entre todos, nenhuma mulher negra jamais foi indicada.
O tribunal é, histórica e estruturalmente, branco, masculino, sudestino, formado por elites jurídicas que se reproduzem entre si. Esse perfil não é acidente: é projeto. Ele sustenta a própria arquitetura de poder do Estado brasileiro.
Nesse cenário, a recusa do presidente Lula, mais uma vez, em indicar uma mulher negra — e a sinalização explícita de preferência por um homem branco anunciada justamente no 20 de novembro — não é apenas uma decisão política controversa. É a reafirmação desse projeto histórico de exclusão. É o momento em que a promessa de mudança se dobra à lógica velha da República. É, sim, a ruptura de um pacto.
QUANDO A MAIORIA NÃO É AUTORIZADA A OCUPAR O PODER
Somos maioria. Mulheres negras são o maior grupo populacional do país.
O Movimento Negro foi — e segue sendo — a espinha dorsal do campo progressista, tanto na elaboração de políticas públicas como na sustentação eleitoral. Foi a militância negra que garantiu votos decisivos, ruas mobilizadas e credibilidade moral para os projetos democráticos.
Em todos esses processos, houve um pacto tácito: nós sustentamos a democracia e o campo progressista, e, em troca, o Estado avança na pauta racial como prioridade estratégica — não como concessão.
Mas quando chega a hora do poder real — a cadeira que decide o destino constitucional do país — essa maioria é tratada como se fosse minoria política. Somos convocadas para garantir votos, para defender governos, para segurar as bases nos territórios, para reconstruir a democracia após golpes e retrocessos. Mas não somos autorizadas a sentar na cadeira onde a democracia é de fato desenhada.
Essa assimetria não é ingênua. É racismo institucional em sua forma mais sofisticada: a que se reveste de justificativas técnicas, acordos políticos e cálculos de governabilidade enquanto mantém intacta a reserva de poder dos mesmos corpos de sempre.
20 DE NOVEMBRO: QUANDO O SILÊNCIO VIROU RECADO
A escolha — e o momento em que ela é anunciada — produzem um recado político claro.
No dia dedicado à luta contra o racismo, à memória de Zumbi e Dandara, o governo se colocou ao lado da continuidade, não da ruptura. Em vez de afirmar o compromisso com o futuro, reafirmou a lógica do passado.
O que o 20 de novembro de 2025 disse às mulheres negras foi simples e brutal:
“Mesmo hoje, mesmo agora, mesmo com tudo o que fizemos, ainda não será a sua vez.”
Isso não é apenas doloroso. É politicamente grave. Porque a agenda racial não pode ser tratada como adorno simbólico em datas comemorativas, enquanto as decisões estruturantes seguem sendo tomadas longe de nós.
O PROGRESSISMO BRASILEIRO TEM UM LIMITE — E ESSE LIMITE É RACIAL
Há décadas o campo progressista afirma que luta contra o racismo. Mas sempre que a luta exige transferência real de poder, a pauta é deslocada para o rodapé. Ao Executivo, concede-se diversidade controlada. Ao Legislativo, concede-se disputa. Mas no Judiciário, no coração da soberania constitucional, as portas seguem fechadas.
O argumento da “governabilidade” é velho — e seletivo. Serve para justificar homens brancos no topo, mas nunca para permitir que mulheres negras cheguem lá. Serve para negociar com as elites, mas nunca para confrontá-las. Serve para manter o pacto das instituições, não o pacto com quem sustenta essas instituições no território, no voto e na luta cotidiana.
E é por isso que esta indicação — ou a ausência dela — tem peso de ruptura.
Porque ela expõe o limite do progressismo brasileiro: ele ainda não ousou enfrentar o racismo onde ele é mais resistente — no acesso ao poder judicial máximo.
OS MINISTROS “TERRIVELMENTE CRISTÃOS” E A VIOLÊNCIA REITERADA CONTRA AS TRADIÇÕES DE MATRIZ AFRICANA
Mas há uma segunda ruptura, tão grave quanto a primeira — e que precisa ser nomeada com firmeza.
A escolha sucessiva de ministros alinhados ao imaginário dos “terrivelmente cristãos”, aprofunda ainda mais a exclusão estrutural que marca o Estado brasileiro. Em um país onde as tradições de matriz africana foram historicamente criminalizadas, seus territórios destruídos e suas lideranças perseguidas pelo aparato policial e pelo fundamentalismo cristão, a hegemonia cristã no STF não é neutra — é continuidade.
Cada indicação reforça a lógica colonial que sempre tratou o cristianismo como única legitimidade possível, enquanto relegou as tradições africanas ao espaço do “perigo”, “desvio” ou “suspeição”.
E quando esse padrão se repete justamente em um governo sustentado massivamente pela população negra, periférica e de matriz africana, a escolha deixa de ser apenas conservadora. Torna-se simbólica — e profundamente violenta.
O que se diz, ainda que não se verbalize, é o seguinte: o cristianismo tem legitimidade para decidir sobre todas as vidas.
É nesse ponto que a ruptura se torna evidente. O Estado laico funciona para restringir os direitos e liberdade das pessoas não cristãs. E não estamos nos referindo a ruptura religiosa, e sim à ruptura política, histórica e civilizatória.
CRITICAR NÃO DESLEALDADE, É LUCIDEZ POLÍTICA
É compromisso com um pacto que o Movimento Negro nunca abandonou. É a insistência em lembrar que não existe democracia sem enfrentamento real ao racismo. E que não haverá um Brasil verdadeiramente plural enquanto o sistema de justiça permanecer blindado contra a presença de quem mais sustenta a própria ideia de democracia no país.
A presença de uma mulher negra no STF não é simbolismo.
Não é uma questão de representatividade decorativa.
É questão de poder.
O Supremo Tribunal Federal é o lugar onde se interpreta o país, onde se define o que é constitucional, quem tem direitos reconhecidos, quem pode viver e quem pode morrer. A ausência completa de mulheres negras nesse espaço diz muito sobre o que o Estado brasileiro considera legitimidade política. Diz que, embora as mulheres negras sustentem campanhas, ganhem votos, organizem territórios, formulem políticas e produzam pensamento crítico, o exercício máximo do poder ainda lhes é interditado.
Quando isso é negado — mais uma vez — por um governo que se elege com votos massivos da população negra, especialmente das mulheres negras, a sensação não é de divergência pontual.
É de pacto rompido. Não porque nós abandonamos o pacto — mas porque ele nos foi negado no momento decisivo.
ENQUANTO O STF NÃO TIVER UMA MULHER NEGRA, O BRASIL CONTINUARÁ INCOMPLETO
A ausência de mulheres negras no STF não é uma falha ocasional: é a marca mais profunda da desigualdade brasileira.
É o lembrete diário de que este país ainda não se permitiu imaginar um futuro em que o poder seja compartilhado.
E, quando um governo que se diz comprometido com a justiça social não faz essa escolha possível, necessária e histórica, ele não apenas perde uma oportunidade — ele reafirma o pacto com o Brasil que precisa ficar para trás.
O que nós cobramos não é favor.
É democracia.
É o direito de existir onde o país decide quem tem direitos.
Enquanto isso não acontecer, o STF continuará sendo o que sempre foi:
um espelho do Brasil que desejamos superar.
A ausência de uma mulher negra no STF não é apenas um vazio. É um sintoma. É o retrato de uma república que ainda não se reconciliou com sua própria história — e que segue adiando o futuro que precisamos construir.
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