Londres

Em Abril de 2021, na sequência de reações anti-China vindas de jornalistas e políticos portugueses com relação a diretrizes de Pequim instando a Teledifusão de Macau - TDM a difundir conteúdos patrióticos ao gigante asiático, a  imprensa portuguesa publicou matérias atribuídas ao jornal chinês, Global Times, onde se liam opiniões realçando que ''Portugal é apenas um pobre colono, sem capacidade de fazer a diferença'' e notando que ''alguns portugueses, no entanto, ainda parecem ter um complexo de suserano''.

São Tomé e Príncipe (STP) assinou com a Rússia, em 24 de abril último, um acordo militar no qual as partes comprometeram-se a cooperar em vários domínios de interesse mútuo no referido setor. Por sua vez, o presidente da Guiné-Bissau, Umaro El Mokhtar Sissoco Embaló, foi um dos convidados de honra do presidente Vladimir Putin nas cerimónias do 9 de maio, Dia da Vitória, data em que a Rússia assinala anualmente o aniversário da vitória da então União Soviética e aliados, sobre a Alemanha Nazi.  

A relação feudo-vassálica entre o suserano e o vassalo ficou clarividente no tanto de ''kidalê-ô’’ (termo autóctone santomense de pedido de socorro, derivado do português ''aqui-d'el-rei'') de reações verdadeiramente histéricas, assombrosas,  estúpidas e virulentas, próprias de mentalidades colonialistas, salazarentas e racistas ainda vigentes em setores da política e da sociedade portuguesa, na sequência de atos soberanos de suas antigas ocupações africanas, sobre as quais acham que têm ainda o direito de tutela em troca de fidelidade e serviços.

Publicidade

Leia Também:

O presidente Marcelo de Sousa manifestou, de imediato, a sua intenção em conhecer o acordo. Paulo Rangel, o chefe da ''diplomacia intimidatória'' lusa, uma espécie de sub-disciplina da ''diplomacia coercitiva e de hegemonia'' do ocidente coletivo liderado pelos EUA, aplicada para com os aparentemente mais vulneráveis dos vulneráveis, disse que o governo português e de outros Estados Europeus, não especificados, “manifestaram estranheza'' perante o acordo russo-santomense.

Da sua história, os portugueses, excetuando os que aprenderam sobre o lado não branqueado e glorificado da mesma, foram levados a enfatizar as páginas enaltecendo o orgulho ao “nobre povo” de ‘‘heróis do mar” e da “nação valente e imortal”, partindo em “descobertas” mundo fora, dando “novos mundos’’ ao mundo. Carregando com eles o pesado “Fardo do Homem Branco”, como narrado no poema do inglês Rudyard Kipling, para romantizar uma suposta “missão civilizadora” feita de incontáveis crimes contra a humanidade cometidos pelas então principais potências europeias imperialistas, em busca de novas rotas de comércio, na chamada “Era dos Descobrimentos’’. Com o caminho aberto por Portugal, foram cometidas e, ainda hoje, por não poucos, aplaudidas, barbaridades ditas civilizatórias, validadas pelo cristianismo e por monarcas feitos representantes de Deus na terra.

Pouco ou nada aprenderam que os “heróis” não foram assim tão heróis como pintados e que a nação, como todas outras, não é assim de todo um povo tão “nobre” e “valente’’ como demonstram, entre tantos outros, os seguintes exemplos:

1 - Fuga da família real e da corte para o Brasil nas primeiras horas da manhã do dia 29 de novembro de 1807 perante a inevitabilidade da invasão francesa na sequência do ultimato feito por Napoleão obrigando Portugal a aderir ao bloqueio continental fechando os portos aos navios ingleses. Estima-se, em mais de 10 mil, os portugueses que, acompanhando os fujões, deixaram o povo à sua sorte;

2 - Cedência, sem resistência, ao ultimato inglês de 1890 que exigia de Portugal a retirada militar de territórios entre Angola e Moçambique acabando assim com a sua pretensão de soberania sobre os mesmos, desenhada no mapa-cor-rosa, em antecipação à Conferência de Berlim que dividiu a África ao belo-prazer e ganância dos europeus;

3 - Forma humilhante e criminosa como, em 1 de Agosto de 1961, Portugal deixou a Fortaleza de São João Baptista de Ajudá, após ultimato de três dias dado pelo governo do recém-independente Daomé, atual Benin, para que entregasse a possessão erguida no século XVII com a finalidade de explorar o tráfico de escravizados. Em vez de optar pela dignidade da rendição e conversação na retirada, o governo português, por ordem do ditador fascista Oliveira Salazar, optou por uma saída piromaníaca através de seus representantes locais, o administrador Saraiva Borges e seu adjunto, Mendes Alves, que, na noite de 31 de julho para 1 de agosto atearam fogo à possessão então considerada menor colónia do mundo antes de fugirem, na calada da noite, não sem destruir todos os documentos com informações sobre suas atividades;

4 - Rendição incondicional das forças militares portuguesas em pouco mais de 24 horas, em dezembro de 1961, marcando o fim inglório do então Estado Português da Índia instalado desde 1505;

5 - Submissão, por 48 anos, à uma ditadura salazarista fascista que só caiu com a chamada “revolução dos cravos’’ em 25 de abril de 1974 devido à luta de portugueses, estes sim, verdadeiramente nobres, heróicos e valentes, e às lutas armadas de libertação africanas iniciadas na década de 1960.

Não foi devidamente ensinado aos portugueses, que as narrativas dos vencedores desprezam as dos vencidos. Com séculos de presença em África e no mundo, não aprenderam com uma das versões do muito citado provérbio africano dizendo que “enquanto os leões não escreverem sua história, prevalecerá a versão dos caçadores”. Só agora estão se apercebendo, atônitos e aterrorizados, que os leões sempre contaram pela oralidade a sua versão da história e que, cansados de não serem ouvidos, começaram a escrevê-la.

Hoje, já não é tabu e tão-pouco desconhecido no mundo que a história de Portugal em África é igualmente a história de muitas lutas e resistências depois que, de encontros iniciais de curiosidade, cordialidade, conhecimento e respeito mútuo, se tornou evidente para os africanos que o objetivo dos lusitanos era invadir suas terras, nelas fincar bandeira e construir padrões para territorializar e ressignificar novos espaços, na competição de descarada ladroagem entre europeus.

Se soubessem melhor o outro lado da sua história, os portugueses se lembrariam que nas ilhas de STP existe um povo de alforriados desde o século XVI em razão de suas revoltas contra a escravatura e que, desde então, mantém em si genes de liberdade. Um povo que, em 1953, ativou esses genes e se levantou contra a tentativa do então governador colonial, o criminoso Carlos Gorgulho, de o voltar a forçar para o trabalho escravizado nas plantações locais; que, do levante, Portugal respondeu com o massacre de Batepá, um crime que teve como principal consequência nas ilhas o trágico assassinato de centenas de santomenses, segundo umas fontes, milhares, segundo outras.

Batepá inspirou revoltas em outros territórios de ocupação portuguesa, nomeadamente Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, acelerando neles o início das respectivas lutas armadas de libertação nacional. Saberiam que a GB é o país do grande Amílcar Cabral, cuja independência foi conquistada e proclamada unilateralmente pelo PAIGC em 24 de setembro de 1973. Considerado por muitos o “inferno português” em África, foi naquele território onde, o que restava do império começou verdadeiramente a desmoronar, tal era a intensidade da luta armada antevendo derrota militar de Portugal.

De São Tomé e de Bissau vieram respostas prontas e contundentes caindo como trovoadas em Portugal. Patrice Trovoada, chefe do governo santomense replicou e, entre outros recados e puxões de orelhas aos tugas, apelou para a ''diplomacia do respeitinho'' dizendo ao regime em Lisboa que em STP ''há o respeito da soberania e há o respeito das regras diplomáticas''. Fez questão de lembrar, também, que o seu país não precisa de passar por Portugal para se relacionar com a Europa. Por sua vez, Embaló, o presidente bissau-guineense, embalou na mesma trova dizendo não precisar de autorização de ninguém para visitar a Rússia.

(Continua)

 

 

FONTE/CRÉDITOS: Alberto Monteiro de Castro