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Londres
“Parece novela”. Este é o título de um livro de contos de Elis Cruz, pseudônimo literário da socióloga e professora universitária angolana, Elisabete Ceita Vera Cruz. Parece novela este novo “Estatuto do indigenato”, título de outro livro da mesma autora, que Portugal ainda mantém e pretende continuar mantendo, de forma aberta ou velada, com antigos territórios africanos sob sua ocupação como se viu pela reação neocolonialista de portugueses de todos os quadrantes políticos, uns mais que outros, aos atos soberanos de governos africanos de suas antigas ocupações coloniais, hoje Estados independentes, nomeadamente São Tomé e Príncipe e a Guiné-Bissau, e suas relações com a Rússia, como tratado na primeira parte deste artigo.
Novela, não como no livro de Elis cujos contos narram o cotidiano de mulheres sofridas e guerreiras na história mais recente de Angola, mas novela de colono arrogante e “abusante”, como diz Luzia Moniz, africana nascida em em Angola, como faz questão de se identificar, jornalista, autora, socióloga, progressista, panafricanista e internacionalista, residente em Lisboa.
O abusante foi de tal ordem inconcebível para a panafricanista que, em gesto de solidariedade, fez questão de, propositadamente, se deslocar à embaixada de STP em Lisboa para, pessoalmente, manifestar ao embaixador, Esterline Género, o seu total e incondicional apoio pela liberdade do país insular de decidir soberanamente a sua política externa.
Luzia prestou, assim, um tributo às memórias dos alforriados do século XVI que não aceitaram a escravatura, dos mártires de 1953, da poetisa e nacionalista Alda Espírito Santo, do geógrafo e poeta panafricanista Francisco José Tenreiro, do médico e panafricanista Hugo Azancot de Menezes, um dos fundadores do Movimento Popular de Libertação de Angola, MPLA, e de todos os africanos e africanas que no passado combateram o colonialismo e a escravatura.
Mana Luzia, tia Luzia, mamã Luzia, como carinhosamente novas gerações a tratam, compa Luzia, como a chamo - a exemplo do que faço com dona Diva Moreira, companheira afro-brasileira, mana, panafricanista, ativista maior de causas justas, entre elas as de justiça racial e reparações coloniais - agiu também em nome de todos os que ansiamos e nos batemos por uma África unida, livre e próspera, a ser reconstruída tendo como alicerces refundacionais os desejos de gerações de insubmissos e insubmissas, de libertadoras e libertadores que nos antecederam.
A exemplo de outros africanos e afro-portugueses panafricanistas ativos em Portugal, seus pensamentos e ativismo serão um dia pesquisados, estudados e avaliados por futuras gerações de pensadores, pesquisadores e estudiosos, tal como hoje se faz com a geração dos primeiros e vocais panafricanistas do início do século XX em terras lusitanas.
O momento atual que vivemos, exige que a maior das coragens chame por outras coragens para mostrarmos solidariedade entre nós e para com povos em luta pela liberdade e dignidade em todo o mundo, sem que, como bem diz a professora Elisabete, se desvalorizem formas menos visíveis, e até invisíveis, de solidariedade.
O desapontador, mas não desanimador, foi observar o silêncio revelador de algumas figuras públicas africanas e diaspóricas que nos habituamos a acompanhar e admirar através do conteúdo de suas postagens nas redes sociais, artigos em jornais, participações ativas em conferências, webinários, seminários, entrando e saindo de conversas em canais de youtube, rádios e televisões, kizombando à exaustão em discursos bonitos sobre justiça social e inclusão racial, equidade, justiça reparativa pela escravatura e colonialismo.
Silêncio revelador de covardia, talvez por dependência de algum patrocínio aos seus projetos, medo de perder emprego, ou tacho, ou apenas de por cumplicidade para com Portugal. Só desse modo se pode compreender o silêncio de muitos – é bom recordar a frequência, em impérios decadentes, e de outros que só existem no imaginário de saudosistas, com que vozes de mentes patológicas se erguem para defender a recolonização da África.
Neste momento histórico de mudanças na geopolítica mundial rumo a um mundo pluricêntrico, como gostava de dizer o grande Hugo Chávez, em que, como no aforismo de Gramsci “o velho mundo agoniza, o novo tarda a nascer e, nesse claro-escuro, irrompem os monstros”, há que dar a cara e, se necessário, o corpo ao manifesto.
Não há que ser como os “muristas’’ em cima do muro e como os escondidos atrás da cortina observando a briga para decidir só no último instante o lado a escolher, quando a posição já lhes é favorável”, como sempre faz questão de me lembrar António Maria Sita, comandante aposentado da Polícia Nacional de Angola, amigo de infância, camarada de lutas da juventude e hoje muito mais panafricanista.
A nova geração africana, ou parte muito significativa dela, não se mostra disposta a contemplar quieta a África, vendo nela um “corpo inerte onde cada abutre vem debicar o seu pedaço’’ como disse Agostinho Neto. Tal como a geração dos libertadores, mostra-se ‘’disposta a morrer e até a matar” em defesa da mãe África, como escrito em um dos contos de “Parece novela”, no contexto dos primórdios da independência de Angola.
O momento é de Unidade e Luta, como ensinou Amílcar Cabral, para juntos resistir e conter a farra dos abutres, internos e externos, independentemente de nossas divergências pessoais e de simpatias político-ideológicas. Por isso, manifestar publicamente a nossa unidade é um imperativo panafricanista que nos deve inspirar, galvanizar e mobilizar no apoio a novas lideranças que estão retomando o caminho dos libertadores e fazendo rupturas com a geração de vendidos e traidores que se lhes seguiu. Como nos inspira, galvaniza e mobiliza a resistência do povo palestino e o extraordinário movimento de solidariedade mundial gerado em favor da causa da sua libertação, como temos presenciado em todo mundo.
Luzia terá, como todos na sua linha de intervenção, gente invejosa e maldizente do seu exemplo de coragem ao dar a cara e tornar pública a sua ação solidária. Mas certamente será para o lado onde dormirá melhor. Como no passado, haverá sempre entre nós os que, convenientemente, aparecem com argumentos, atuações ou omissões para assegurar a supremacia da sociedade branca ocidental e os lugares de ‘’negros e negras da casa’’ que lhes são reservados.
Benjamin Burombo (1909-1959), ícone da luta sindical na então Rodésia do Sul, hoje Zimbabwe, resumiu de forma simples e bem elucidativa o comportamento de alguns dos nossos na seguinte frase: ''Cada vez que eu quero lutar pelos direitos dos africanos, eu uso apenas uma mão porque a outra está ocupada tentando afastar os africanos que lutam contra mim.'' Como me disse a jornalista, autora e ativista antirracista afro-portuguesa, Conceição Queiroz, ''compreendo até que haja pessoas que, por várias razões, não se engagem em nossas lutas, mas que não nos atrapalhem''.
(Continua)
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