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Londres
Por gestão de espaço e de tempo de leitura a este longo artigo, segmentado em três partes para facilitar a olhada de quem tiver interesse em o ler, retomo nesta terceira e última parte a conclusão da minha análise às reações portuguesas aos atos soberanos dos governos de São Tomé e Príncipe e da Guiné-Bissau em decorrência das suas relações destes com a Federação Russa.
Se de um lado do que parece novela de “abusantes e absurdos’’ há cabecinhas esquisitas em Portugal, há, de outro, cabeças pensantes como o general Agostinho Costa, presença constante na CNN-PT, com paciência de chinês para ouvir e lecionar russófobos, sinofóbos, propagandistas da NATO e do sinonismo israelense. Portugueses que há muito aceitaram o direito de autodeterminação e soberania dos povos e que, no caso dos falantes de portugues, querem com eles manter e reforçar os existentes laços de amizade, respeito mútuo e fraternidade assentes em afetos construídos, apesar de todos os pesares, ao longo de séculos de escravatura e colonialismo.
Os países africanos estão entrando na segunda vaga independentista, alertou Azeredo Lopes, ex-ministro da Defesa de Portugal, em um podcast do jornal Público (13.04). Fez saber que ’’as gerações que hoje são dominantes não tiveram experiência colonial, mas isto não lhes mata a memória do que foi a colonização e olham com mais agressividade aquele que consideram o velho colono. São mais pragmáticos e muito mais dispostos a negociar conforme o objetivo’’.
O que Du Bois chamou de ''salário público e psicológico'' do branco pobre para se sentir recompensado na sua branquitude, e com ela se ver a si mesmo superior ao negro, não mais faz parte da folha de pagamento aos europeus vindas de países africanos. Se velhos colonos e imperialistas ricos estão levando tunda na África, imagine-se o que pode acontecer com um colono pobre com mentalidade de suserano. As novas gerações aprenderam, estão aprendendo, que a história mostra repetidamente que a Europa/Ocidente coletivo não se importa com a África e que, quando demonstra algum interesse por ela, não é para o benefício dos africanos.
Os portugueses têm todo o direito de se sentirem orgulhosos e nostálgicos do que veem como grandioso passado imperial/colonial, em razão da versão oficial da história apresentada. Não é, pois, de admirar que suas elites manifestem, consciente ou subconscientemente, saudades daquele passado com palavras, atos, gestos e comportamentos como, por exemplo, o de se tratarem, aristocraticamente, não pelos respectivos nomes mas pelo título de “doutores”. Ridícula “cultura de doutorismo”, espécie de compensação psicológica por títulos nobiliárquicos feudais perdidos. Além de ridículo, é, sem o saberem, clara demonstração de pequenez, coisa de fracos que acreditam que puxando de galões afirmam a sua suprema condição, autoridade.
Cultura de títulocracia exportada para antigas ocupações africanas, por estas abraçadas sem sentido crítico e replicadas com o mesmo comportamento ridículo. Não da forma compensatória que os portugueses descobriram para, na ausência de ilustres títulos nobiliárquicos, se darem importância brandindo galões universitários e outros, mas por mera vaidade e imitação do antigo colono. Comportamento que se enquadra no campo da psicanálise e no que o psicólogo, teórico social e pensador panafricanista, Amos Wilson, chamou de “falsificação da consciência africana”.
Não é também de admirar que vejam hoje em figuras desportivas, que com suas conquistas pelo mundo carregam o nome do país, deixam sua marca fazendo erguer a bandeira ao som do hino nacional, os navegantes e exploradores que fizeram suas glórias no passado distante erguendo padrões e fincando bandeira em territórios que iam invadindo e ocupando ao redor do mundo.
Devem, no entanto, ter a humildade de reconhecer que, tal como hoje na arena desportiva, no passado o então Reino Unido de Portugal, do Brasil e dos Algarves d’Aquém e d’Além Mar em África e da Guiné, e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc, só conseguiu êxitos mundo fora porque contou com a colaboração, voluntária ou forçada, de oriundos de povos com os quais se cruzou. Até o acaso do destino os levou a chegarem ao que hoje se chama Brasil quando o objetivo da viagem de Pedro Álvares Cabral era a Índia e o fortalecimento do comércio com o Oriente.
Vasco da Gama talvez não chegasse à Índia sem a prestação decisiva de navegadores locais conhecedores da rota e que o guiaram na última escala da sua viagem, em Melinde, (no atual Kênia), costa oriental da África. Os aventureiros militares portugueses, tidos como grandes exploradores Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, entre outros, certamente não teriam estudado e pesquisado, com fuzil nas mãos e africanos feitos bestas de carga, territórios entre Angola e Moçambique no segundo quartel do século XIX, antecipando a Conferência de Berlim, sem a fundamental colaboração de guias autóctones conhecedores da geografia e da cartografia locais, os quais a história menoriza chamando-os pejorativamente de pombeiros.
Durante anos do ‘’orgulhosamente sós’’ do regime salazarista, o futebolista moçambicano Eusébio carregou com ele o nome de Portugal no mundo. Ederzito António Macedo Lopes, mais conhecido por Éder, oriundo de Bissau, deu ao país o inédito título de campeão europeu de futebol, conquistado em 2016, ao marcar o gol da vitória na competição.
Em 2004, ao ganhar a Medalha de Prata nos Jogos Olímpicos de Atenas, o nigeriano naturalizado portugues, Francis Obikwelo, conquistou a primeira medalha olímpica na história de Portugal em provas de velocidade. Nomes, entre outros, como os dos campeões olímpicos, europeus e mundiais em triplo salto Nelson Évora, de origem cabo-verdiana e Pedro Pichardo, afro-cubano, das santomenses Carla Sacramento e Naide Gomes, de Patrícia Mamona, de ascendência angolana, no atletismo fizeram elevar o orgulho nacional dos portugueses, pelo menos da maioria esmagadora.
Assim, se por um lado os portugueses, salvo exceções, têm o direito de olhar para a sua história vendo nela apenas um mapa cor-de-rosa, por outro, têm também que respeitar o direito de quem vê o mesmo mapa com cores menos ou nada bonitas, de saber que histórias de conquistas de que se vangloriam não foi feita apenas por aqueles a quem identificam como ‘’portugueses de gema’’, termo racista que os tugas usam para afirmar sua ‘’pureza racial’’.
Bom, portanto, que os portugueses de hoje, fora da gema, mais para a casca do que para a clara do ovo, desprovidos complexos de colono e de suserano, tenham sempre em mente o que o filósofo alemão Walter Benjamin atestou: “nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie”. Por outras palavras, a incompreensão do presente tem raiz na ignorância do passado.
Em conclusão, para o bem ou para o mal, são inegáveis os enormes feitos e contributos dos homens do mar, portugueses quinhentistas, para a história da navegação mundial. Só quem, por recalcamento histórico-racial, não reconhece tamanha epopéia de gentes de um pequeno e pobre país do sul mais ocidental da Europa. Mas, descolonizar a história e, com ela, as mentes, é uma condição para que, juntos e apaziguados no inevitável confronto com a história comum, possamos navegar por novos mares e ares rumo a um futuro mais harmonioso e bonançoso.
Descolonizar a história passa também por que se tenha em atenção que as palavras significam, como gosta de sublinhar a socióloga Elisabete Vera Cruz – quem diz, diz o quê, como, quando, porquê...? Por isso é urgente que também as Reparações, um debate atrasado em Portugal (mais um), mas também nos nossos países africanos que falam português, descodifiquem, debatam e participem da história. Ela não é o passado, ela está sempre sendo. Reflitamos!
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