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Exposição "Ecos do Silêncio" Traz à Luz o Período da Escravidão em São Paulo
A Ordem dos Advogados do Brasil Seção São Paulo (OAB SP) apresenta, pela primeira vez em sua história, a Semana de Memória e Resistência Negra. Como parte central da programação, profissionais e visitantes com interesse no tema têm a oportunidade de conferir a impactante exposição "Ecos do Silêncio". A mostra reúne objetos e documentos da época da colonização e escravização de pessoas negras trazidas do continente africano e de seus descendentes diretos.
Uma Coleção de Quinze Anos Fruto de Pesquisa e Dedicação
Os itens em exibição fazem parte de uma coleção meticulosamente concebida e aprimorada ao longo de aproximadamente 15 anos pela advogada, cineasta e pesquisadora Mabel de Souza. Sua inspiração surgiu após uma visita à cidade de Rothenburg Ob Der Tauber, na Baviera, Alemanha, onde ficou profundamente impressionada com a preservação de elementos históricos, incluindo um museu de criminologia que exibia peças de suplício daquele período.
Mabel ressalta a importância de confrontar a história. "É muito interessante que eles não precisam dizer 'Olha, a gente está expondo a nossa história porque, para ir para a frente, a gente precisa reconhecer o que houve atrás'. Eles simplesmente expõem, não há o que ser dito. E acho que a gente faz muito pouco disso no Brasil", afirma a pesquisadora, que no próximo dia 24 também lançará o livro Engenhosidade Perversa, no âmbito da semana temática da OAB SP.
A História por Trás das Peças e o Impacto no Brasil
Estimativas apontam que entre 4 milhões e 8 milhões de pessoas foram trazidas à força da África para o Brasil, com a referência predominante sendo de cerca de 5 milhões. Esse tráfico forçado é um aspecto fundamental para compreender o perfil demográfico atual do país, que possui a maior população negra fora da África, perdendo apenas para a Nigéria.
Mabel de Souza revelou à Agência Brasil que os documentos e instrumentos utilizados para torturar pessoas negras escravizadas foram encontrados por ela em diversos estados brasileiros e adquiridos com recursos próprios, muitas vezes pagos em até 60 parcelas, chegando a custar o salário integral de um mês. Inicialmente, seriam apenas ilustrações para seu livro, mas evoluíram para uma coleção de destaque próprio. A pesquisadora justifica seu empenho pelo maior impacto que o conjunto de peças provocaria nos visitantes, algo que uma peça isolada dificilmente conseguiria.
O Papel Crucial das Mulheres Negras e a Relevância do Acervo
"A gente deve muito às mulheres pretas, porque elas tinham acesso a todos os lugares. Umas falavam com as outras. Muitos de nós fomos separados de nossa família já nessa escravização brutal e perversa. É isso que me faz trabalhar durante 15 anos e montar essa exposição, juntar esses instrumentos. Há um mercado para esses instrumentos e cada um deles custa muito caro", explica Mabel, que também é diretora da Comissão de Igualdade Racial e Verdade sobre a Escravidão, do Sindicato das Advogadas e Advogados do Estado de São Paulo.
Ela relata a dificuldade de acesso a esses itens: "Fui a um museu e pedi para fotografar alguns instrumentos que ele tinha, para colocar no livro, e não me deram autorização. Procurei outras pessoas, uma deixou, outra não, e aí alguém falou: 'Por que você não compra?'. Disseram que a instituição não autorizava. Estive praticamente em todos os estados, buscando esses instrumentos, olhando os solos onde a escravidão teve mais lugar, como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Ceará, Norte e Nordeste em geral. E fui comprando cada um deles."
Entre as peças expostas, que podem ser vistas em livros didáticos, estão a canga ou pau de maiombé e o viramundo, que forçavam as pessoas negras a permanecer em posições desconfortáveis. Também há colares de ferro com hastes e sinos, que impediam fugas ao alertar, pelo som, sobre qualquer movimentação.
"Essas peças falam por si só. Todas são originais. Corpos estiveram ali. Gritos. Elas ecoam mesmo, são ecos. Fico muito emocionada quando falo delas. Lidar com isso não é fácil, escrever sobre isso não é fácil. As pessoas sofrem impacto com as peças, eu também, sofro disso todo dia e levar esse trabalho muito me orgulha, porque sou instrumento de algo maior", declara Mabel. "Não é só a nossa história, enquanto pessoas pretas, é a história desse país, é a história de todos."
Para a presidente da Comissão da Verdade Sobre a Escravidão Negra no Brasil da OAB SP, Cristiane Natachi, a proximidade com instrumentos como o chicote é transformadora. Essa curta distância impulsiona os profissionais a refletirem sobre como o período escravagista ainda reproduz mecanismos de sujeição da mesma população. Cristiane, que é yalorixá (líder de terreiro de candomblé), comenta que essa experiência não é comum na grade curricular do Direito: "A exposição de hoje é um marco, com certeza. Saber pela história? A maioria sabe sobre os objetos. Mas ter acesso e sentir aquele arrepio na coluna. Ouvir alguns cânticos, a toada de um tambor é chocante? Para alguns é, porque não faz parte da vivência da advocacia como um todo, mas explica muito sobre como nós vamos atuar lá fora. E isso a faculdade não traz".
Serviço
1ª Semana de Memória e Resistência Negra da OAB SP
Exposição Ecos do Silêncio
- Data do evento: Até 24 de maio de 2025 (sábado)
- Horário: Das 9h às 18h
- Local: Rua Maria Paula, 35 – Centro. São Paulo (SP)
- Entrada gratuita.
Palestra e Lançamento do Livro Engenhosidade Perversa, de Mabel de Souza
- Data do evento: 24 de maio de 2025
- Horário: Das 9h às 12h
- Local: Rua Maria Paula, 35 – Centro. São Paulo (SP) (Sede da OAB SP)
3ª Caminhada Educativa - Chão dos Nossos Ancestrais
- Data do evento: 24 de maio de 2025
- Horário: Logo após a palestra e lançamento do livro
- Local: Da sede da OAB SP ao bairro da Liberdade
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