Espaço para comunicar erros nesta postagem
Não há o que comemorar. Foi sancionado o projeto de lei que altera o nome da Praça da Liberdade, no centro da capital paulista, para "Liberdade-África-Japão", com alterações nas placas de identificação do local, que fica entre a avenida Liberdade e as ruas Galvão Bueno e dos Estudantes. De autoria dos vereadores Reis (PT) e Luana Alves (PSOL), a proposta foi aprovada em maio pela Câmara Municipal. Foi a segunda vez em cinco anos que o nome da praça foi alterado.
O problema não foi a mobilização política para a inserção da referência negro-africana neste espaço público. Ocorre que a história oficial continua distorcendo o processo de civilização dos lugares de memória negra na cidade de São Paulo e minimizando as atrocidades do sistema social escravista. Vide o caso do Cemitério dos Aflitos, do Quilombo Saracura e do Sítio Arqueológico do Saracura-Vai-Vai, além de outros sítios arqueológicos que atestam o esforço empregado, outrora, para esconder os vestígios históricos da presença negra que formam a capital paulista.
Originalmente Largo da Forca, marcado por experiências de povos originários e negros, o bairro conhecido como Liberdade foi "higienizado" com o tenso processo de ocupação dos primeiros imigrantes japoneses. Transformou-se em bairro japonês e o sistema se aproveitou para soterrar seu passado escravista por ali, como se fosse possível.
Agora a escultura de Madrinha Eunice (que foi inaugurada naquele largo, sem ao menos uma placa de identificação) paira solitária no meio da praça que passa a ser inscrita como Liberdade-África-Japão.
Mas, qual a África estarão exaltando? Como ficam as contribuições dos negros que não tiveram liberdade, que já não eram mais de África e nunca foram do Japão? Afinal qual a história que eles querem que a gente acredite agora?
Sozinha na praça
Publicidade
A estátua de Madrinha Eunice (1909-1995) foi inaugurada em 2 de abril de 2022. Quebrando todos os protocolos, a prefeitura da cidade entregou a obra sem nenhuma descrição da homenageada.
A primeira iniciativa para reparar o vexame foi do ativista Chicão, presidente do Sindicato dos Eletricitários, que colocou a identificação com um QRcode que informava sobre Madrinha Eunice. "Pouco tempo depois a prefeitura foi lá, tirou a placa e colocou outra, que é pequena, distante da estátua dela e que está se apagando no chão. Vou falar com o DPH, para resolver isso aí. Estava tão bem com o QRcode na placa que o Chicão tinha posto. Mas fizeram o favor de tirar, a placa que identificava Madrinha Eunice", disse Rosemeire Marcondes - presidente de honra da Escola de Samba Lavapés (Lavapés Pirata-Negro), neta de Madrinha Eunice.
Sobre a praça não ter o nome da avó, Rose comenta: "Eu acho que eles tinham que ter visto isso direito. Ficou até engraçado. Liberdade-África- Japão? Teriam que manter Liberdade e só! Essa é a história. Na minha opinião não precisava colocar África-Japão. Teria que ser só metrô Liberdade. Teria que ser sempre Liberdade e pronto. Uma Liberdade de Madrinha Eunice, Liberdade do povo preto. Uma Liberdade de Chaguinhas que sofreu pelo povo preto. Pra mim tinha que ser Liberdade, sempre Liberdade", criticou Rose.
Madrinha Eunice (Deolinda Madre) foi a primeira mulher negra a fundar uma escola de samba em São Paulo, em 1937. Ela liderou uma importante rede de sociabilidade negra na região dos bairros da Liberdade e Baixada do Glicério, com sua presença nas festas do samba e com a sua religiosidade negra, liderando a prática da Quimbanda junto ao espaço da escola de samba.
Quando poderemos realmente celebrar nossas memórias negras e exaltar personagens (homens e mulheres pretas) que contribuíram para a formação da cidade de São Paulo?
Ainda não foi desta vez!
*Claudia Alexandre*
Jornalista, Pesquisadora e Doutora em Ciência da Religião (PUC-SP)
Autora do livro *Orixas no Terreiro Sagrado do Samba Exu e Ogum no Candomblé da Vai-Vai.* (Editora Aruanda)
Junho/2023
FONTE/CRÉDITOS: Redação/Claudia Alexandre
Publicado por:
Claudia Alexandre
Jornalista, comunicadora de Rádio e TV. Especialista em expressões culturais afro-brasileiras; samba. escolas de samba e religiosidades de matrizes africanas, com interesse na presença de mulheres negras nestes territórios.
Nossas notícias
no celular
Receba as notícias do Africas Play no seu app favorito de mensagens.
Whatsapp