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A Imperatriz Leopoldinense, escola de Ramos, anunciou seu enredo para o Carnaval 2027, intitulado “A memória do rei e o sumiço de Dona Júlia”. A agremiação levará para a Marquês de Sapucaí uma proposta que une mistério, ancestralidade e cultura popular, ao se aprofundar na intrigante história de uma calunga de maracatu que permaneceu desaparecida por mais de três décadas.
O carnavalesco Leandro Vieira, conhecido por sua habilidade em contar histórias e pela profundidade de suas pesquisas para o quesito enredo, encontrou nesta trama singular o alicerce para desenvolver uma temática que promete cativar o público da Sapucaí.
Para o próximo ano, Vieira mergulha na trajetória de uma calunga que, após ser levada a um museu na década de 1970, permaneceu desaparecida por mais de trinta anos, reencontrando seu maracatu de origem apenas durante os ritos do Carnaval de 2014.
Dona Júlia, a boneca sagrada esculpida para preservar os axés do Maracatu Porto Rico, foi retirada de seu grupo em 1978. Em 1980, após a reivindicação de posse por parte dos representantes do maracatu, a instituição responsável por sua custódia a declarou desaparecida, por motivos ainda não esclarecidos.
O reaparecimento da calunga ocorreu de maneira peculiar, três décadas depois, quando foi deixada por um estudante em um terreiro de Olinda. Ele alegou que o objeto “assombrava” sua residência.
A narrativa, desvendada por Leandro Vieira em suas investigações sobre o cotidiano do Brasil popular, ganhou um novo desdobramento. Um telejornal pernambucano noticiou o paradeiro de uma boneca sem identificação, enquanto um babalorixá procurava por seus legítimos donos.
Com a imagem da boneca veiculada na televisão, ela foi finalmente recuperada, sendo reconhecida pelos membros mais antigos de seu maracatu original.
A profundidade cultural do enredo
Conforme explica o carnavalesco, “A memória do rei e o sumiço de Dona Júlia” transcende a história individual da calunga. Ele visa expandir a compreensão sobre as tradições dos maracatus de baque virado, apresentando-os como ambientes vitais para a preservação de ritos.
Esses ritos estão profundamente ligados à coroação dos reis do Congo e a devoções espirituais específicas, que incluem o culto aos eguns e o encantamento de objetos, aspectos nem sempre amplamente divulgados.
A Dona Júlia, figura central deste enredo de Leandro Vieira, foi criada sob a orientação do babalorixá Eudes Chagas. Destinada a ser um dos objetos sagrados do maracatu onde ele foi coroado rei em 1967, a boneca carrega consigo a ancestralidade do egun de Maria Júlia do Nascimento.
Maria Júlia, falecida em 1962, foi a histórica rainha do Maracatu Elefante e era popularmente conhecida como Dona Santa.
O significado das calungas nos maracatus
As calungas são elementos de profunda importância e veneração nas tradições dos maracatus de Pernambuco. Elas são tidas como objetos sagrados, encarregados de representar a proteção dos ancestrais.
Por essa razão, o retorno de uma calunga perdida é sempre um evento de grande celebração e a ocasião para a realização de rituais significativos.
A trajetória singular desta boneca sagrada – desde sua origem, passando pelo misterioso desaparecimento, o emocionante reencontro e a subsequente reiniciação espiritual de seus axés para que pudesse retornar às ruas – constitui o fio condutor narrativo. Esta proposta integra as pesquisas de Vieira com ricos elementos do imaginário afro-brasileiro.
A Imperatriz Leopoldinense será a última agremiação a se apresentar na Marquês de Sapucaí na segunda-feira de Carnaval, dia 8 de fevereiro de 2027.
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