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Segunda-feira, 09 de Fevereiro 2026

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Quem é Iyá Katiuscia de Yemanjá, liderança negra na COP30

Ela faz parte da comitiva que ONG CRIOLA levou para o centro da discussão

Quem é Iyá Katiuscia de Yemanjá, liderança negra na COP30
Eze Joshua
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Arreda, homem, que aí vem mulher. É com esse trecho de cantiga religiosa que Iyá Katiuscia de Yemanjá forja a sua mini biografia. Uma das integrantes da comitiva de 15 mulheres negras que a ONG CRIOLA enviou para a COP30, ela vem se destacando em seu trabalho assistencial e educacional, na região de Guaratiba, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Para a conferência, que não está acostumada a ouvir mulheres negras, ela leva o conhecimento ancestral, as questões do dia a dia e as soluções de seu território.


Mulher de terreiro, Yakekere do Ilê Axé Òbá Labi, mas não só. Ela é articuladora e educadora política pelos direitos das comunidades negras de terreiro e ecologias ancestrais; coordenadora de incidência política na pauta de gênero e justiça ambiental da Casa Coletivo Terreiro Òbá Labi e implementadora do projeto de feminilidades As Padilhas e de educação ecológica tradicional no Quintal das Pedrinhas Miudinhas; liderança territorial implementadora do projeto Saúde da Mulheres Negras da ONG CRIOLA;  mestre em linguagens pela UERJ e professora da educação básica pública e periférica. 


A comitiva da qual faz parte é uma conquista histórica. Mulheres negras dificilmente estão nos lugares de decisão. Segundo dados da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), apenas 16% dos brasileiros presentes na COP de 2022 eram pessoas negras. Ao analisar 2021, este número cai para 6,17%. Em 2025, a presença de apenas uma mulher negra entre os 22 enviados especiais fala por si. Nada de representatividade para quase 30 milhões de brasileiras, que são as que mais sofrem as influências da crise climática.

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Segundo o relatório “Raça e o Gênero da Justiça Climática – Mapeando Desigualdades na Normativa Global”, 18% das favelas predominantemente negras estão em regiões de risco climático, em comparação à média de 3% de todo o  espaço das cidades. O mesmo relatório diz que, em São Paulo, 37% da população é negra, mas essa proporção chega a 55% nas áreas com risco de deslizamento. Já o relatório “Sem Moradia Digna, Não Há Justiça Climática”, da Habitat Brasil, aponta que 66,58% da população residente em áreas de risco é negra e 37,37% dos domicílios são chefiados por mulheres. Estudos da ONU Mulheres apontam que 158 milhões de mulheres e meninas podem ser levadas à pobreza até 2050 em decorrência das mudanças climáticas, com 236 milhões submetidas à insegurança alimentar — sempre com recorte agravado por raça, território e gênero. 


A participação de Iyá Katiuscia na COP representa a atuação em conjunto entre a ONG CRIOLA e a Rede de Mulheres Negras para o Futuro com Justiça Climática. Ela enfatiza que trabalhar em rede é a estratégia essencial para construir justiça climática e garantir que as populações afrodescendentes, especialmente as mulheres negras, tenham participação efetiva nos processos decisórios. “[O trabalho em rede] vem sendo feito desde que os nossos antepassados chegaram aqui, apartados do seu território. Tivemos  que reconstruir esse país dentro das tradições e da cultura para podermos sobreviver”, conta ela.


O trabalho da Rede de Mulheres Negras para o Futuro com Justiça Climática é apresentado como um legado histórico de resistência e adaptação, que remonta aos seus antepassados. Essas mulheres, sejam de comunidades tradicionais ou periferias, sempre desenvolveram estratégias de sobrevivência e cuidado com a natureza, simbolizadas pelos "quintais" como pequenos espaços de preservação de memória e biodiversidade. A luta central do projeto é pelo reconhecimento dos seus saberes e fazeres, que formam um contínuo indissociável, em oposição à lógica ocidental que os separa. A incidência política busca assegurar que os recursos e as políticas de adaptação e mitigação climática sejam construídos a partir desses conhecimentos, com a consulta prévia e informada às comunidades, evitando que as soluções recaiam novamente sobre seus ombros sem considerar sua expertise ancestral.


“A nossa presença na COP é para fazer com que aquilo que vivenciamos nos territórios seja visibilizado. A gente não quer processos de adaptação pensado por pessoas que não vivem nos nossos territórios. Porque a palavra é transição justa, mas se você não tem um protocolo de consulta daqueles locais, você não pode efetivamente dizer que isso é justo. Além disso, eu acredito que nossas organizações sociais também precisam ser potencializadas por outras instituições e até mesmo pelo próprio governo, para que possamos conversar com a sociedade civil no nosso entorno”, finaliza Iyá Katiuscia.


Conheça as outras representantes da comitiva


Ana Tobossi: Ativista antirracista, graduanda em Gestão em Saúde Pública e comunicadora popular. Atua no projeto Saúde na Favela, coordenando a equipe da Rocinha. Militante do Movimento Negro Unificado-RJ e Movimento Popular de Favelas.


Andrea Barreto: educadora ambiental, formada em Química, com atuação como coordenadora de projetos socioambientais no território do Conjunto de Favelas da Maré. Entre 2023 e março de 2025, coordenou o Projeto EcoClima, iniciativa voltada à promoção da educação ambiental e da justiça climática em territórios periféricos. 


Cynthia de Oyá: fundadora do Observatório de Povos de Terreiro, Doutora Honoris Causa, militante, jurista, pesquisadora de Gênero em Raça e medicina ancestral, especialista em Direito de Família; Direito de religiões de matriz africana e Direito do Entretenimento; e assessora parlamentar.


Debora Silva: professora e assistente social (UFRJ); Fundadora da ONG “Sim! Eu Sou do Meio” e co-fundadora do Fórum do Cuidado do Estado do RJ. Mobilizadora social, palestrante e uma das coordenadoras do Fórum Estadual de Cozinhas Solidárias. Pós-graduanda em Direito e Raça.


Glória Cristina dos Santos: catadora e coordenadora  do “Movimento Nacional Eu Sou Catador - MESC”. Co-fundadora do MESC, da Coopergramacho e da Associação dos Catadores do Aterro Metropolitano do Jardim Gramacho. Preside a ACERJ - Associação de Catadores de Materiais Recicláveis do Estado do Rio de Janeiro e a Rede MESC de Cooperativas da Baixada. 


Iyá Mônica de Obá: iyalorixá do candomblé, regente do Ilê Axé ebun Xango fun mi, é também a fundadora e presidenta da Sociedade da Mulher Guerreira . É feminista negra, capelã, ativista ambiental e climática, defensora dos direitos humanos e participa de forma ativa nos movimentos sociais, fóruns, conselhos, conferências entre outros.


Iyalorixá Roberta de Yemonjá: fundadora e gestora do Instituto Cultural e Ambiental Águas do Amanhã (ICAA), que integra a Rede de Cozinhas Ancestrais Solidárias (REDE ICAA). Militante pelos direitos da população negra, articuladora do Núcleo de Saúde da População Negra, atua na defesa da segurança e soberania alimentar ancestral e na proteção do meio ambiente.


Thaynara Fernandes: bióloga (UERJ); diretora executiva do Coletivo Simbiose; analista de pesquisa no Centro Brasileiro de Justiça Climática; Jovem Negociadora pelo Clima pela SMAC e intercambista na Universidade de Columbia - NY. Em 2023, participou da COP28 e dos Diálogos Amazônicos.


Victoria Alves: geógrafa (UFF) e mestra em Políticas Públicas em Direitos Humanos (UFRJ). Idealizadora do Geo.preta, integra a Coalizão É o Clima de Mudança e o GT da Carta de Direitos Climáticos da Maré. Pesquisadora no Observatório de Favelas e na ENSP/Fiocruz, atua com políticas públicas, racismo ambiental e justiça climática através da cartografia social.

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Marcele Ferraz

Publicado por:

Marcele Ferraz

Produtora de conteúdo, pós-graduada em Escrita Criativa, Roteiro e Multiplataformas

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