É no centro do Recife/PE que a artista visual Marina Zardo — natural de Tubarão, no sul do estado de Santa Catarina, e que atualmente mora na cidade de São Paulo/SP — faz a sua primeira exposição solo: “Onde moram os sonhos”. A mostra entra em cartaz no Cais do Sertão, com a abertura no dia 4 de abril (sábado), às 18h, e entrada gratuita. A visitação fica aberta até o dia 3 de maio deste ano. As obras artísticas são pinturas produzidas em óleo sobre tela (técnica de arte a mão livre), além de dois quadros bordados manualmente, trazendo narrativas de autonomia, desejo e liberdade da mulher, a relação com a natureza e a existência no universo. São 32 telas disponíveis para o público em geral (classificação indicativa: livre). 

A curadoria de “Onde moram os sonhos” é de Janaina Pessoa, pesquisadora, produtora cultural, curadora e diretora de arte de São Paulo. Além de idealizadora independente, Marina Zardo assume a expografia, juntamente com a própria Janaina, e o design. Já a realização é pernambucana, com autoria do Umbral das Artes (Hub Criativo Multicultural, com sede no centro do Recife) e da MOLA (produtora colaborativa de pesquisa e gestão de projetos, com raízes na comunidade do Bode, na Zona Sul do Recife), além do apoio da Seabra Produção (Recife), que atua com cultura, arte, audiovisual e educação criativa como ferramentas de impacto e transformação social. 

Na abertura, Marina Zardo realiza uma visita guiada, com a presença da produção. A mostra abre para visitação nos horários e dias de funcionamento do Centro Cultural Cais do Sertão (Avenida Alfredo Lisboa, Bairro do Recife, Armazém 10): 10h às 16h (de terça a sexta-feira); 13h às 18h (sábado e domingo); e toda última quinta-feira do mês as atividades são estendidas das 10h às 20h. A entrada custa R$ 5,00 (meia) e R$ 10,00 (inteira), exceto toda terça-feira, sempre com acesso gratuito. 

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A exposição sugere esse lugar onde os sonhos habitam a partir de um território entre o humano e o animal e o íntimo e o imaginário, em que as personagens existem em liberdade e transformação. Ao mesmo tempo, o conceito é de permitir sonhar, criar universos e insistir na alegria como formas de abrir frestas para continuar resistindo e existindo. 

“A mostra surge do sonho como um território onde outras formas de existência podem aparecer. Nas obras, diversas figuras femininas vivem em estados de transformação, atravessando fronteiras entre mulher, bicho, natureza e espírito. As imagens criam um universo de gênero, das pessoas femininas, que aparecem como uma força livre, intuitiva e indomável. O sonho, nesse contexto, não chega como fuga da realidade, e sim por meio de um espaço no qual desejos, instintos e memórias mais profundas podem se manifestar”, apresenta Marina Zardo. 

Das telas pintadas que estão na exposição, ela destaca “A Guardiã”, “Árvore dos sonhos”, “Pássaro” e “Casas de sonhos”, reforçando que as obras se conectam para existir entre estados humano, animal, vegetal e imaginário. O que une as peças é justamente a hibridização (formação do híbrido; na biologia é o processo pelo qual se produzem, natural ou artificialmente, híbridos animais ou vegetais, resultantes do cruzamento de espécies distintas; hibridação; mistura resultante da junção de coisas diferentes). 

“São corpos, formas e presenças que se transformam e se misturam, como se viessem de um sonho coletivo. Nesse sentido, as obras estão num espaço de transição, onde identidades se dissolvem e novas possibilidades de ser aparecem. Assim, a narrativa que está na exposição é a do encantamento de sermos mulheres híbridas, em constante mudança”, declara. 

Marina Zardo leva o movimento que luta pela igualdade de gênero — feminismo — para as próprias produções, lembrando sempre que é um ato político. Ela valoriza essa influência direta entre as pautas feministas e as suas referências. 

“Para mim, um corpo feminino em liberdade já é um gesto político. Muitas das minhas pinturas apresentam mulheres vivendo o desejo, a autonomia e a liberdade de forma aberta. Isso também tem relação com o jeito que escolhi viver minha própria vida: Sou uma mulher que escolheu viver livre e isso influencia na maneira como penso o feminino e as possibilidades de existência para as mulheres”, acrescenta. 

Por si só, a exposição tem uma dimensão política e social, sobretudo pelo próprio ato de sonhar e imaginar futuros possíveis. Sendo assim, o sonho passa de individual para coletivo. 

“Dentro de um contexto latino-americano, marcado por desigualdades e apagamentos sociais, sonhar também pode ser entendido como uma forma de resistência e sobrevivência. Vejo isso presente nas manifestações da cultura popular brasileira, como o carnaval e os rituais coletivos, onde o corpo, a imaginação e a alegria criam brechas para reinventar a vida”, contextualiza. 

A ideia da exposição é fruto das pinturas criadas no próprio ateliê e nas residências artísticas, reunindo assim momentos diversos da sua pesquisa. As séries “Performances da emancipação”, realizada no primeiro semestre de 2025, e “Filhos do mar”, a mais recente desenvolvida pela artista e inspirada coincidentemente no Nordeste (litoral de Alagoas e Pernambuco), unem-se também a outras e fazem um combo para uma única mostra. 

“As obras surgiram ao longo dos últimos dois anos e em tempos diferentes. A exposição tem o objetivo justamente de reunir e compartilhar esse universo. Em ‘Performances da emancipação’, cada obra é um pedaço do retrato de uma mulher do meu convívio íntimo, cujas histórias afirmam o direito de existir em sua complexidade, com desejo, prazer e liberdade. Já em ‘Filhos do mar”, trazemos as crianças com seres do mar em suas cabeças, num mesmo universo, no qual não existe hierarquia entre os seres. Além disso, algumas outras pinturas ilustram personagens que atravessam todo esse período da minha produção, como o pássaro, o cervo e o cavalo, que aparecem em diferentes horas e ajudam a construir o imaginário das obras”, explica. 

Diante da coletividade, a equipe técnica é formada por Shell Osmo (coordenação executiva); Maria Rocha (produção); Rose Lima (consultoria artística); Sandro Morais (iluminação); Édson Barbosa e Alessandro Fábio (montagem); Karina Barros (mediação); Tássia Seabra (comunicação); Daniel Lima (assessoria de imprensa); e Rogério Nascimento (audiovisual). 

Vale reforçar que “Onde moram os sonhos” é aberta para o público em geral. “A mostra é pensada para todas as pessoas, inclusive porque acreditamos no museu como um espaço público. É nos equipamentos culturais que diversas pessoas podem se encontrar e viver a arte, independentemente de idade, formação ou familiaridade com exposições. Esperamos alcançar um público diverso. Desde as pessoas que já frequentam museus até aquelas que talvez estejam entrando em contato com uma exposição pela primeira vez. A gente quer que qualquer pessoa possa se sentir convidada a entrar nesse universo”, argumenta. 

Ela espera que novas pessoas acessem a cultura, com direito à informação. Ela também acredita que é possível proporcionar um encontro entre as pessoas e as obras, fazendo com que cada visitante tenha a própria experiência. 

“O que interessa é aproximar a arte de pessoas que talvez não se sintam tão pertencentes a esses espaços. Então, é importante que o museu seja cada vez mais um lugar acessível, vivo e aberto. O desejo é de que as pessoas descrevam a exposição como um encantamento e um local de entrar em contato com um universo sensível e imaginativo, e talvez se permitir olhar para o mundo com um pouco mais de imaginação. Se a exposição conseguir despertar sensações, pensamentos ou memórias, já sinto que ela cumpriu seu papel”, comenta. 

Histórias na dança e no Recife

A catarinense Marina Zardo começa a se envolver com o universo artístico-cultural por meio da dança. Foram 20 anos atuando nessa linguagem. Há quase dez anos, ela veio ao Recife para uma apresentação com uma companhia de dança. Na ocasião, nem imaginava que chegaria à função de artista visual. 

“A dança tem a ver com o que crio porque me ensinou a escutar e a prestar atenção no corpo, meu e da outra, do outro, nas sensações e na presença. Isso continua presente até hoje nas artes que faço. Mesmo na pintura, muitas imagens nascem desse lugar de escuta. A pintura vem antes da consciência. Sempre digo que a pintura chega antes de mim”, conta. 

Ela celebra a nova vivência na Capital pernambucana, agora como uma artista autoral que atua na cena independente e estreia uma exposição solo. “Cresci em uma cidade muito conservadora. Por conta disso, temas como liberdade e desejo também aparecem com tanta força na minha pesquisa. Existe no meu trabalho um compromisso grande com essas forças, sendo uma forma de afirmar a vida e imaginar outros modos de existir”, pontua. 

Exposição “Onde moram os sonhos” (2026) - Marina Zardo

Local: Centro Cultural Cais do Sertão (Avenida Alfredo Lisboa, Bairro do Recife, Armazém 10)

Abertura: 04 de abril (entrada gratuita)

Horário da abertura: 18h (visita guiada pela artista visual Marina Zardo e presença da produção)

Em cartaz: até o dia 03 de maio

Classificação indicativa: livre

Horário de funcionamento do Centro Cultural Cais do Sertão: 10h às 16h (de terça-feira a sexta-feira); 13h às 18h (sábado e domingo); toda última quinta-feira do mês o horário é estendido das 10h às 20h. 

Entrada: R$ 5,00 (meia) e R$ 10,00 (inteira), exceto toda  terça-feira (acesso gratuito)

Ficha técnica 

Artista idealizadora, expografia e design: Marina Zardo

Curadoria e expografia: Janaina Pessoa

Coordenação executiva: Shell Osmo

Produção: Maria Rocha

Consultoria artística: Rose Lima

Iluminação: Sandro Morais

Montagem: Édson Barbosa e Alessandro Fábio

Mediação: Karina Barros

Comunicação: Tássia Seabra

Audiovisual: Rogério Nascimento

Realização: Umbral das Artes e MOLA 

Apoio: Seabra Produções