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A Unidos de Vila Isabel revelou seu enredo para o Carnaval de 2027, intitulado “Torto arado – sobre a terra há de viver sempre o mais forte”. A proposta, desenvolvida pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, em colaboração com o pesquisador Vinícius Natal, consiste em uma adaptação carnavalesca do aclamado romance de Itamar Vieira Junior, publicado em 2019 pela Todavia.
O livro, que se tornou um fenômeno literário brasileiro com mais de 1 milhão de cópias vendidas e dezenas de traduções, foi agraciado com importantes prêmios como o LeYa, Jabuti e Oceanos. A trama, que se desenrola na Chapada Diamantina, sertão da Bahia, explora uma saga familiar contundente, destacando a força de suas personagens femininas.
Foi a partir desse universo que os carnavalescos da escola de Noel Rosa se inspiraram para conceber a narrativa que tomará a Marquês de Sapucaí.
Gabriel Haddad explicou que a ideia para o enredo surgiu em 2023, após a leitura de “Torto arado”. A equipe notou que o universo do Jarê, uma religião de matriz africana específica da Chapada Diamantina, ainda não havia sido celebrado na Sapucaí.
“O percurso pelas páginas literárias foi muito transformador, de modo que passamos a nutrir o desejo de desdobrar essa história em enredo. Agora, já bem ambientados na Vila Isabel, eu e Leo percebemos que era o momento ideal”, afirmou Haddad.
Ele também revelou um encontro significativo com o autor Itamar Vieira Junior durante uma cerimônia religiosa no Museu Nacional, diante do Manto Tupinambá. Esse encontro ocorreu enquanto a equipe já desenvolvia as fantasias e alegorias para o desfile de 2026, em homenagem a Heitor dos Prazeres.
Leonardo Bora, professor do departamento de Ciência da Literatura da UFRJ e estudioso de “Torto arado”, descreve a tradução da obra literária para o desfile como um desafio estimulante. Ele enfatiza que não se trata de uma adaptação literal, mas de um processo único que respeita a linguagem do samba.
“Tivemos longas conversas com o Itamar e uma palavra foi bastante repetida: liberdade. Ele, o autor da história, disse: ‘vocês precisam ter liberdade criativa.’ Este exercício da liberdade, que é um dos temas pulsantes do livro, é algo fundamentalmente bonito”, destacou Bora.
A prosa de “Torto arado”, rica em alegorias e metáforas, oferece um vasto material criativo para a escola. A história centraliza-se em uma saga familiar narrada por mulheres, ambientada na Chapada Diamantina, refletindo as lutas pela terra em um Brasil complexo e violento no que tange às questões fundiárias.
Bora ressalta que a Unidos de Vila Isabel já abordou temas como demarcação de terras e reforma agrária em desfiles anteriores. Ele descreve a Chapada Diamantina como um território mítico, repleto de encantamentos.
O vídeo de apresentação do enredo, inclusive, assume a voz e o olhar de uma entidade encantada, Santa Rita Pescadeira, que narra as memórias das pessoas e do território. Itamar Vieira Junior, segundo Bora, sabiamente afirmou que “esta é uma história que pode se estender de Norte a Sul do Brasil, onde há pessoas subjugadas, oprimidas, alijadas da terra, sem morada”.
Vinícius Natal, pesquisador da agremiação, estabelece uma conexão entre a temática do enredo e a memória da escola. Ele lembra que a Vila Isabel possui uma tradição de narrativas que se alinham a “Torto arado”.
“Certa vez, em conversa com Analimar, filha de Martinho da Vila, perguntamos a ela o que poderia definir o espírito da escola. Ela disse: ‘A Vila é uma escola de luta.’ Isso ficou na nossa cabeça, ecoando, e automaticamente nos levou a pensar na importância dos enredos do período da constituinte, no final dos anos 1980 e início da década de 1990”, explicou Natal.
Mesmo em épocas mais recentes, a Vila abordou a relação do homem com a terra e defendeu a justiça no campo. A escola demonstra uma preocupação contínua em refletir sobre as violências da estrutura fundiária brasileira e as memórias do pós-abolição.
Contar a história de uma comunidade quilombola sob a perspectiva de uma encantada, no contexto do Jarê, conecta-se diretamente com a identidade aguerrida da escola. Natal enfatiza que o lançamento do enredo em 13 de maio, data de reflexão crítica sobre a luta por direitos e a educação antirracista, não foi por acaso.
“Um enredo como este contribui para isso”, finaliza o pesquisador.
Itamar Vieira Junior expressou sua profunda emoção com a adaptação de sua obra para o Carnaval. “Ver ‘Torto arado’ ganhar vida em uma adaptação para o Carnaval, por meio do enredo da Vila Isabel, é algo que me emociona profundamente”, declarou o autor.
Ele complementa, destacando que “o samba tem a capacidade de ampliar vozes, de transformar memória em celebração e resistência. É uma honra ver essa história ocupar a Avenida e encontrar o povo”.
A Unidos de Vila Isabel será a quarta escola a desfilar no domingo de Carnaval de 2027, agendado para 07 de fevereiro.
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