Na última segunda-feira, o Espaço Cultural da Liga-SP, localizado na Fábrica do Samba, foi palco do lançamento da aguardada coleção Cardeais do Samba. A iniciativa, que resgata e celebra as histórias de pilares fundamentais do samba paulista, apresenta cinco volumes biográficos dedicados aos grandes nomes que moldaram a tradição carnavalesca da capital. O evento contou ainda com uma vibrante apresentação da Mocidade Unida da Mooca, que, em 2027, homenageará esses mestres com o enredo “Modupé, Cardeais!”.

A apresentação da Mocidade Unida da Mooca foi embalada pela voz marcante do intérprete Gui Cruz, que celebrava seu aniversário na ocasião, e pelo ritmo contagiante da bateria "Chapa Quente". O momento foi de intensa emoção, com a execução de sambas-exaltação de escolas icônicas como Nenê de Vila Matilde, Vai-Vai, Unidos do Peruche, Camisa Verde e Branco, Lavapés Pirata Negro e Barroca Zona Sul, agremiações que tiveram suas fundações e trajetórias moldadas pelos homenageados.

Dos cinco autores responsáveis pelas biografias, Tadeu Kaçula foi o único ausente devido a compromissos externos. Contudo, ele participou do evento por meio de um vídeo, onde destacou a importância do projeto e aprofundou-se na história de Seo Inocêncio Tobias.

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O legado de Seo Inocêncio Tobias

Em sua mensagem, Kaçula expressou o desejo de que a obra sobre Seo Inocêncio Tobias, a qual teve o privilégio de redigir, “sirva como um importante inventário para as futuras gerações e para todas as pessoas que entendam e vejam esse homem como um farol, uma mente brilhante que ajudou a construir o samba do carnaval de São Paulo”.

A inédita trajetória de Seo Pé Rachado

A menção a Seo Inocêncio Tobias remete inevitavelmente a seu grande amigo, Seo Pé Rachado, figura central na transformação do cordão Vai-Vai em uma estruturada escola de samba, da qual foi presidente por 25 anos. A jornalista Claudia Alexandre foi a responsável por documentar a trajetória de Seo Pé Rachado, que, surpreendentemente, teve sua história escrita pela primeira vez nesta coleção.

Alexandre enfatizou que a pesquisa revelou um vasto material ainda inexplorado sobre o homenageado.

“Algo que senti de diferente ao pesquisar sobre Seo Pé Rachado é que ninguém havia escrito sobre ele. Então, considero o livro dele um ensaio, que me instiga a pesquisar e me aprofundar mais sobre sua história”, declarou Claudia Alexandre. Ela acrescentou que, devido ao formato de livretos da coleção, o desafio foi focar na inserção dos Cardeais do Samba no carnaval, mas que há um desejo de aprofundar ainda mais essa pesquisa.

Seo Nenê e a Nenê de Vila Matilde na Zona Leste

A coletânea também dedica um volume a Seo Nenê, cuja história foi meticulosamente narrada por Tiaraju Pablo D’Andrea. O autor ressaltou o papel crucial da Nenê de Vila Matilde como um refúgio e lar para a população negra da Zona Leste de São Paulo.

“Uma coisa que me chamou a atenção durante as pesquisas é como a Nenê de Vila Matilde se transforma em uma escola que vai abrigar a população negra da Zona Leste”, explicou D’Andrea. Ele detalhou que, apesar de a Vila Matilde não ser predominantemente um bairro negro à época da fundação, a escola enfrentou resistência inicial, com relatos de tentativas de expulsão, mas conseguiu firmar sua presença, tornando-se um símbolo de acolhimento e resistência no samba paulista.

Seo Carlão e a resistência da Unidos do Peruche

A Unidos do Peruche, agremiação com um histórico de superação, é representada na coleção pela história de Seo Carlão. Ele foi o tema do enredo da "Filial do Samba" em 2025 e, tragicamente, faleceu dias antes do desfile em sua homenagem. Bruno Baronetti, autor da biografia, compartilhou que teve o privilégio de conviver e ouvir pessoalmente as narrativas do cardeal.

“Durante meu mestrado, em 2015, Seo Carlão foi um dos meus entrevistados e, desde 2017/2018, frequento a casa dele, onde passei a fazer uma série de entrevistas. Lancei uma biografia em 2019 e tive a oportunidade de escutar as histórias que ele viveu”, relatou Baronetti. Ele destacou momentos como a luta pela fundação da escola no Parque Peruche e a resistência durante a Ditadura Militar, quando a Unidos do Peruche foi invadida. “Então, me considero muito sortudo por ter convivido com ele e entrevistá-lo”, concluiu.

Madrinha Eunice: a fundadora do samba paulista

A coletânea é finalizada com a história de Madrinha Eunice, reverenciada como a fundadora do samba paulista e criadora da Lavapés Pirata Negro, a escola mais antiga de São Paulo. Lyllian Bragança, responsável pela biografia, compartilhou os desafios e descobertas de sua pesquisa sobre essa figura emblemática.

“Madrinha Eunice teve uma pesquisa difícil na parte documental, pois ela era de Piracicaba, cidade do interior de São Paulo, e lá registraram seu nome errado. Em vez de Deolinda Madre, colocaram Mader, e foi difícil encontrá-la”, explicou Bragança. Ela salientou, contudo, que a vasta rede de afilhados de Madrinha Eunice foi um trunfo. “Ela entendeu que o legado dela seriam as crianças e cuidou delas. Então, automaticamente, elas falam dela”, concluiu, evidenciando a perpetuação de sua memória através das gerações que ela inspirou no samba paulista.

A coleção, uma colaboração entre a Editora Dandara e a Iniciativa Negra, está disponível em formato digital para download em PDF, acessível no site oficial da Iniciativa Negra.

FONTE/CRÉDITOS: Colaboração Carnavalesco