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Segunda-feira, 09 de Fevereiro 2026

Notícias/LUTA

Dos encantos às escrevivências da 3a Fliparacatu, por Claudia Alexandre

O relato de uma autora sobre a 3ª Fliparacatu destaca a curadoria focada em diversidade, os encontros inspiradores e a importância de um evento que celebra vozes negras e indígenas.

Dos encantos às escrevivências  da 3a Fliparacatu, por Claudia Alexandre
Divulgação
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Quando recebi o convite da jornalista Bianca Santana, para participar da 3a Edição da Fliparacatu, não tinha ideia do quanto seria transformadora aquela experiência. Eu não podia imaginar aquele encontro de literatura teria tantos diferenciais e esbanjasse tantos encantos como o 3° Festival Literário de Paracatu, que ocorreu de 27 a 31 de agosto. O tema? "Literatura, encruzilhada e desumanização".

Mesa com Morgana Kretzmann, Truduá Dorrico e Claudia Alexandre
Mesa com Morgana Kretzmann, Truduá Dorrico e Claudia Alexandre

 

A jornalista e escritora, Bianca Santana, parte encantadora da Fli, estava como Curadora, o que me deu um pouco mais de segurança para embarcar para o evento, após conferir a lista de mais de 60 autores e autoras admiráveis, que compunham a programação. Foi uma experiência incrível!

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Um evento de grande porte e diverso, que pela terceira vez ampliava os limites da cidade mineira de Paracatu (rio bom, em tupi-guarani), que está localizada na divisa com o estado de Goiás e a 200 km de Brasília (DF), cujo aeroporto foi nosso ponto de encontro, para seguir viagem por mais três horas pela BR - 040.

Minha ansiedade era saber da emoção de participar de um encontro que anunciava tanta diversidade de pensadores e pensadoras, que incluía uma surpreendente reunião de autoras e autores negras, negros e indígenas que preencheram todos os espaços daquela linda cidade.         

Entre elas: Ana Maria Gonçalves, Andressa Marques, Calila das Mercês,  Carolina Rocha, Cibele Tenório, Claudia Alexandre, Deivison Nkosi, Eliana Alves, Eliane Marques, Estevão Ribeiro, Fernanda Bastos, Jeferson Tenório,  Lavínia Rocha, Lilia Guerra, Lívia Sant’anna Vaz, Luciany Aparecida, Luiz Maurício, Madu Costa, Renato Nogueira... Além da presença indígena de Geni Núñez e Truduá Dorrico.

Eu perguntei à curadora Bianca Santana, autora do livro Apolinária (Editora Fósforo), se essa terceira Fliparacatu era a mais negra das edições até então: " Desde a primeira edição, a diversidade de gênero e raça é uma premissa do Fliparacatu. O mesmo número de mulheres e homens, pessoas negras e brancas, sempre com presença de autoria indígena também. Como você testemunhou, nessa edição, tivemos a alegria de reunir autoras e autores negros de diferentes gerações, regiões e estilos literários. . A cada edição o Fliparacatu tem se afirmado como um espaço de confluência de vozes historicamente silenciadas, que são fundamentais na literatura contemporânea", respondeu a Curador

Bianca Santana,  Curadora da Fliparacatu 2025
Bianca Santana, Curadora da Fliparacatu 2025

 

A Fliparacatu tem mesmo algo especial e do meu lugar de mulher negra, que escreve a partir do ativismo acadêmico e dos saberes de terreiro, eu diria sem dúvida nenhuma que aquele "trem" tem axé!

Foi dessa forma que eu ouvi Ana Maria Gonçalves, bem de perto, (parece sonho né?) e me nutri com sua simplicidade. Difícil fingir costume num bate-papo com a primeira mulher negra a ter cadeira na Academia Brasileira de Letras, sorrindo com seus fios de contas no pescoço, sinalizando nossa irmandade em conexão com as matrizes africanas.  Para completar, em um café da manhã,  sentamo-nos à mesa eu, Ana Maria e Bianca, com o premiadíssimo Ricardo Ramos Filho e com Matheus Leão, o sempre bem-humorado, autor de Em nome dos pais (Editora Intrínseca).

Encontros que, para mim, seriam improváveis aconteceram em qualquer tempo, mas que com certeza foi proporcionado para àquela dezenas de mentes brilhantes. A passagem obrigatória foi a Casa do Autor,  onde a comensalidade fez florescer e fortalecer laços que dificilmente serão desatados.

Em uma destas  oportunidades me sentei à mesa ao lado de Eliana Alves Cruz, autora do cativante Água de Barrela (Editora Malê), no exato momento em que ela  recebia, pelo celular, notícias sobre a estreia da série brasileira  Capoeiras (Disney +), que estrearia no dia seguinte. Eliana atuou na equipe de roteiristas da série brasileira e contou emocionada como foi a sua primeira experiência como showrunners.               

Ver tantas escritoras negras por ali me fez pensar no debate que fazemos sobre representatividade e recorri à Bianca, para saber sobre a importância  de reunir  tantas vozes negras naquele festival:

"A importância é imensa. Ao colocar tantas vozes negras lado a lado, e com autoras e autores brancos e indígenas, mostramos a força e a pluralidade da nossa produção literária. Não estamos falando de uma perspectiva única, mas de uma constelação de experiências, memórias, invenções e visões de mundo. Essa presença coletiva reconfigura imaginários e amplia referências para todas as pessoas que participam do festival", disse.

Como não reconhecer o poder encantado da  Fliparacatu depois de ver o encontro entre o prefeito paracatuense, Igor  Santos, 28 anos,  e o autor português,  Valter Hugo Mãe, 53. Os dois se conheceram quando Igor  aos 14 anos de idade,  se aventurou até a cidade de Paraty (RJ) para conhecê-lo na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), ao se apaixonar por um dos livros do autor. Imagine a emoção de Valter ao reencontrar o menino, agora prefeito, da cidade onde ele é um dos homenageados em plena festa literária?

Como esquecer a primeira vez na Fliparacatu, se também fui magnetizada pelo ilustre olhar do maestro e romancista, Ricardo Prado, que me presenteou com um exemplar do livro Os primeiros ((Editora da Ponte), depois de anunciar a surpresa no grupo de wathsapp, incentivado pela jornalista Miriam Leitão (tenho prints!).  Ricardo Prado ainda me proporcionou um adorável bate-papo no hall do hotel, onde me apresentou à história de José Maurício Nunes Garcia, o genial músico negro, que também era padre e se destacou no Brasil colonial do século XVII. Um daqueles personagens negros soterrados pela história oficial da música brasileira. Ricardo registrou boa parte dela numa joia literária brasileira de 839 páginas.

Como esquecer o abraço de Dra. Lívia Sant’anna, promotora de Justiça do Ministério Público da Bahia, autora de A Justiça é uma Mulher negra (Coleção Juristas Negras) e a mensagem para que eu a procurasse quando fosse à cidade de Salvador, onde já tenho tantos amigos e amigas queridas. Agora também Dra. Lívia.    Me lembrei de Lélia Gonzalez falando sobre como mulheres negras e suas "experiências comuns" se reconhecem e renovam esperanças ao se identificarem.

Bianca Santana também foi tocada pela mesma emoção: “Foi muito emocionante ver e ouvir mulheres negras ocupando a centralidade da programação, trazendo suas narrativas, seus corpos e suas trajetórias.  A força ancestral que atravessou todo o festival, de mulheres que abriram caminhos antes de nós e de todas as que seguem escrevendo e resistindo, podia ser percebida a todo momento. Essa presença cria um outro horizonte possível", observou.

Exu-Mulher nas encruzas de Paracatu

Minhas escrevivências já tinham chegado em Paracatu. No livro Exu-Mulher e o Matriarcado Nagô (Prêmio Jabuti Acadêmico 2024), sobre masculinização, demonização e tensões de gênero na formação dos candomblés também registro saga de Josefa Maria da Conceição, uma preta-mestra, que liderava práticas rituais da Dança da Tundá, reproduzindo heranças da nação courá, nas terras de Paracutu (século XVIII), que foi vítima da perseguição e das garras do Tribunal do Santo Ofício. Assim, pude falar da motivação da minha escrita e sobre a resistência pelo sagrada das mulheres de terreiros, em uma mesa potente que teve Morgana Kretzmann  e de Truduá Dorrico. Levei na bagagem poucos exemplares de Exu-Mulher e o Matriarcado Nagô  e Orixás no Terreiro Sagrado do Samba, não que tenha subestimado minhas obras, mas que como autora de primeira viagem não tinha a dimensão de como um livro tem vida própria, além de ser infinito. Os livros esgotaram!

Fui surpreendida por uma das leitoras, que abracei. Uma estudante universitária, que me ouviu abraçada a um livro Exu-Mulher, que disse ter saído cedo de Belo Horizonte, para me encontrar e receber um autógrafo.

Por essas e muitas outras, que voltei de Paracatu mais apaixonada pelos livros, inspirada a não parar de escrever e parece que Bianca Santana também:

"Volto nutrida. Sou parte de um grupo maravilhoso de curadoria. E estar nessas companhias pensando literatura, encruzilhada e desumanização é também um ato de compromisso com a caminhada coletiva. Saio do Fliparacatu com a certeza de que seguimos escrevendo livros, e o Brasil mais justo e igualitário com a qual a gente sonha. Como mulher negra, me sinto honrando o compromisso que assumi com o movimento negro e com minha ancestralidade de seguir contribuindo com a luta coletiva ao construir liberdade por meio do encontro e da palavra", sem mais.  Axé Fli!

 

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Claudia Alexandre

Publicado por:

Claudia Alexandre

Jornalista, comunicadora de Rádio e TV. Especialista em expressões culturais afro-brasileiras; samba. escolas de samba e religiosidades de matrizes africanas, com interesse na presença de mulheres negras nestes territórios.

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