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O conceito de blackwashing, ou "antirracismo de aparência", está em foco após o lançamento de um estudo abrangente que mapeia as estratégias de comunicação utilizadas por empresas para projetar um compromisso com a igualdade racial, sem efetivar mudanças estruturais em suas práticas. A pesquisa, divulgada em 14 de julho de 2026, foi elaborada por pesquisadores da organização não governamental (ONG) ACT Promoção da Saúde.
O levantamento de 133 páginas, intitulado “As corporações são, de fato, engajadas na pauta racial?”, detalha uma série de táticas de comunicação e marketing que visam construir uma imagem pública de engajamento com a causa antirracista, muitas vezes para fins de lucro.
O que é blackwashing?
Em sua essência, blackwashing pode ser compreendido como uma "lavagem" ou maquiagem da imagem corporativa em relação à pauta racial. O termo é análogo a outros conceitos como greenwashing (para compromisso ambiental) e pinkwashing (para causas LGBTQIA+), todos indicando uma instrumentalização de pautas sociais para benefício próprio.
Os autores do estudo definem blackwashing como uma "tática corporativa que instrumentaliza a causa antirracista para disfarçar a busca implacável por lucro". Essa prática é criticada por demonstrar um engajamento superficial com pautas de justiça racial, sem enfrentar as iniquidades raciais de maneira estrutural.
As oito variedades do antirracismo de aparência
Os pesquisadores identificaram e mapearam oito distintas variedades de blackwashing que as empresas empregam para construir uma fachada de compromisso com a equidade racial. Essas táticas visam manipular a percepção pública sem gerar transformações significativas internamente.
- Divulgação seletiva: Empresas enfatizam apenas as melhorias em questões raciais, omitindo áreas sem progresso ou até mesmo com retrocessos. Essa estratégia é vista como um "antirracismo de aparência".
- Políticas e reivindicações vazias: Implementação de políticas que prometem grandes transformações nas relações raciais, mas que possuem baixo poder de execução ou impacto limitado no status quo.
- Certificações duvidosas: Uso de selos e certificações de terceiros para promover produtos ou a própria empresa como benéficos para pessoas negras.
- Apoio e parceria com ONGs cooptadas: Associação com organizações que atuam na pauta racial para conferir credibilidade aos esforços corporativos na busca pela equidade racial.
- Programas voluntários sem eficiência: Criação de programas e códigos de conduta voluntários para equidade racial, mas com mecanismos de aplicação fracos ou inexistentes.
- Narrativas e discursos enganosos: Campanhas de marketing que posicionam a corporação como referência antirracista, desconsiderando seu histórico real nesta área.
- Marcas enganosas: Utilização estratégica de logos, influenciadores e vozes para sugerir que a marca é intrinsecamente antirracista.
- Acessar e influenciar a formulação de políticas: Empresas buscam acesso e influência em espaços de tomada de decisão sobre políticas de equidade racial, saúde e direitos da população negra.
Falta de representatividade no topo das empresas
O estudo também aponta para a disparidade na representatividade racial em posições de liderança, evidenciando que o compromisso de algumas empresas com a diversidade é meramente uma fachada. Dados de um levantamento do Instituto Ethos, que analisou as 1,1 mil maiores empresas do país, corroboram essa constatação.
Apesar de 55,5% da população brasileira se identificar como preta ou parda, esse grupo corresponde a menos de 6% dos conselhos das empresas e a menos de 14% dos cargos executivos e de diretoria. O relatório critica a falta de transparência das organizações que divulgam iniciativas de diversidade sem apresentar dados claros sobre a composição racial de suas lideranças.
Para os autores do estudo, o blackwashing não é um erro isolado, mas sim uma "peça de engrenagem que mantém a desigualdade racial funcional à acumulação". Eles enfatizam que o combate a essa prática exige mais do que denúncias pontuais, requerendo a construção de "respostas capazes de incidir sobre a arquitetura que o torna possível".
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